Menopausa - Parte III - As ondas de calor
Dra. Luciana Nobile

Os sinais e sintomas de climatério e/ou menopausa variam em intensidade e freqüência. Da mesma maneira, problemas semelhantes têm diferentes níveis de percepção em cada pessoa.

Algumas mulheres apresentam toda a gama de desconfortos, enquanto que outras só percebem estar na menopausa em virtude da ausência de menstruação.

Porém, é relevante que a paciente sempre faça avaliação ginecológica quando da irregularidade menstrual ou mesmo diante da parada dos ciclos, porque inúmeros outros fatores podem determinar quadros semelhantes.

Quando no climatério, período que antecede a menopausa em alguns anos e, ainda por definição, a sucede em um ano, as alterações mais freqüentes e precoces experimentadas pela mulher são as ondas de calor e os distúrbios menstruais.

Nesse número do Breves de saúde abordaremos as famosas ondas de calor, de elevada prevalência e desconforto.

As ondas de calor

As ondas de calor, também chamadas de fogachos ou hot flashes , em inglês, caracterizam-se por um calor localizado em tronco, pescoço e cabeça, em geral acompanhado de vermelhidão facial, suor excessivo e também calafrios, com duração de um a cinco minutos. É quando a mulher se pergunta: ' Está quente aqui, ou sou eu ?' Apesar de duração efêmera, pode repetir-se em curtos intervalos.

Talvez decorrentes de fatores próprios do sistema nervoso central, está diretamente ligado ao declínio da produção ovariana de estrogênios.

Incide em cerca de 75 a 80% das mulheres, sendo que, após cinco anos da menopausa, menos de 25% delas ainda continuam com o sintoma, quando não tratadas. O tempo médio de duração dos fogachos é de cerca de quatro anos.

Usualmente ocorrem diariamente, com freqüência variável em cada mulher. Cerca de um terço tem ao redor de dez ocorrências por dia. Parece ser mais freqüente em pacientes com sobrepeso e em fumantes.

O fogacho noturno

A intensidade das ondas de calor é variável de paciente para paciente e algumas nem se dão conta de que estejam tendo episódios delas. Em outras, o quadro vasomotor é tão importante, que chegam a molhar as vestes, travesseiro e lençóis durante a noite: é a chamada sudorese noturna. Não se sabe ao certo se os fogachos são responsáveis pelos distúrbios de sono apresentado durante o climatério, a despeito de que durante muito tempo se acreditou que sim, por despertar a mulher a cada evento noturno. Igualmente, discute-se se o climatério em si aumenta a incidência de alterações do sono.

Algumas mulheres se queixam também de odor desagradável no suor, sendo necessários vários banhos, por vezes até durante a noite, por constrangimento diante do(a) companheiro(a).

Realmente não é agradável passar por esses desconfortos, mas a compreensão do(a) outro(a) nessas circunstâncias colabora para amenizar distúrbios no relacionamento sexual.

Quando a mulher não percebe o fogacho

Sintomas semelhantes têm importância variável para cada paciente. A percepção do fogacho pode passar desapercebida, conforme ilustrarei com um caso relatado.

Em evento social com amigos, a geriatra virou-se para a amiga e disse ' Você está tendo ondas de calor! ' A mulher levou um baita susto, porque há algum tempo apresentava episódios semelhantes freqüentes, assim como alterações menstruais características do período, sem se dar conta de que pudesse se tratar de climatério, pois ainda não fizera quarenta anos. Nessa ocasião, tinha estado na ginecologista, que por sua vez, não tendo detectado causa ginecológica para justificar a alteração do ciclo menstrual, a encaminhou para a endocrinologista. Depois de inúmeras análises clínicas, concluiu-se que suas alterações menstruais fossem decorrentes de sobrepeso. Com esse diagnóstico, procurou na ocasião uma psicoterapeuta, com a expectativa de auxiliar no seguimento de dieta para reduzir o peso. Não fosse a geriatra alertá-la sobre as ondas de calor, num evento social, a paciente teria continuado em sua romaria de consultas aos especialistas, em virtude de irregularidade menstrual! Porque não se dera conta que também tinha fogachos.

E assim tem sido com inúmeras outras mulheres, porque o climatério, em sua fase inicial pode apresentar-se com inúmeros sintomas, mas com níveis hormonais normais quando aferidos em exames de sangue.

Algumas doenças, apesar de pouco freqüentes, também podem cursar com ondas de calor, tais como o hipertireoidismo, a ingestão aguda de álcool, e outras moléstias menos usuais (carcinóides, feocromocitoma).

Tratamento

O tratamento clássico de eleição dos hot flashes até há pouco tempo, era a terapêutica de reposição hormonal, mais especificamente, o uso do estrogênio ou TRE (terapêutica de reposição estrogênica).

Quando da reposição estrogênica em mulheres com útero, é obrigatória a reposição concomitante de progestagênios, para evitar o efeito colateral conhecido de aumento da incidência do câncer de endométrio nas mulheres que repõem estrogênios sem o antagonismo da progesterona.

Entretanto, estudo realizado nos Estados Unidos, com quase trinta mil mulheres, mostrou que usuárias de estrogênio com progesterona exibiam depois de alguns anos, aumento na incidência de câncer de mama, doença cardíaca coronariana, tromboembolia, acidente vascular cerebral e demência. E, quando do uso de estrógeno sozinho, aumentava os riscos de acidente vascular cerebral, sem redução da doença coronariana (o que se acreditava até então). Nesse grupo tampouco aumentou o risco de câncer de mama.

Esses resultados foram desanimadores para todos, pacientes, ginecologistas, cardiologistas e clínicos em geral. Entretanto, vale salientar que a medicação analisada nessa pesquisa foi de uso exclusivo por via oral. A absorção do estrogênio nessa via de uso é feita no intestino e daí vai integralmente ao fígado, onde promove aumento da produção dos fatores de coagulação (efeito de primeira passagem). Isso por si só poderia eventualmente explicar os riscos da administração estrogênica.

Diante desses fatos, fartamente ilustrados em pesquisas clínicas, restam algumas questões fundamentais, tais como:

- e quando se administra o estrogênio por outra via, transdérmica ou transvaginal, que teoricamente não aumenta a produção de fatores de coagulação nas mesmas proporções, ocorreria também aumento de risco dos mesmos transtornos provocados pela via oral?

- em quantidades menores dos hormônios do que aquelas empregadas na pesquisa, como seriam os resultados?

- porque, contrariando nossas expectativas, o uso exclusivo de estrogênio (em mulheres sem útero) não aumentou o risco de câncer de mama?

Enquanto tantas questões permanecem sem respostas confiáveis, partiu-se para terapêuticas alternativas à TRE, algumas com resultados razoáveis, outras sem comprovação de sua eficácia.

Aparentemente as ondas de calor são amenizadas pela perda de peso, abandono do vício pelo cigarro, uso de ventiladores e ar-condicionado e ingestão de bebidas geladas.

Descreve-se também que respirar profundamente, devagar, com respiração abdominal, possa ser benéfico, assim como outras técnicas de relaxamento.

O uso de isoflavonas ou fitoestrogênios (estrogênios das plantas) é de resultado discutível no tratamento dos fogachos, aparentemente sem melhora em relação à administração de placebo (medicação sem princípio ativo).

Alguns antidepressivos, tais como a paroxetina, a fluoxetina e a venlaflaxina têm alguma eficácia na abordagem das ondas de calor. Porém, como não são todas as mulheres beneficiadas com esse tipo de tratamento, apenas cerca de 60% encontra algum alívio, deve-se ponderar sobre os riscos e benefícios, visto que essas drogas podem exibir inúmeros efeitos colaterais, tais como sonolência e insônia, náusea, boca seca, entre outros.

A clonidina, medicação indicada na hipertensão arterial, promove melhora das ondas de calor em um percentual razoável de mulheres. Pode promover queda de pressão arterial, boca seca e sedação.

Mais recentemente descreveu-se a ação da gabapentina, antidepressivo de mecanismo desconhecido, que parece também amenizar os fogachos, porém com inúmeros efeitos colaterais.

Dra. Luciana Nobile
E-mail: luciananobile@brevesdesaude.com.br

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