| Breves Literatura impura
As muitas Pessoas Como bem sabe qualquer eventual leitor de poesia, Fernando Pessoa, o maior poeta português destes muitos séculos, optou por viver mais de uma vez em quarenta anos. Viveu quatro ou cinco pessoas diferentes, com suas biografias e histórias de vida diversas, nítidas e coerentes. No entanto, seu único livro publicado em vida, "Mensagem" (omito de propósito todas as datas por mor da eternidade do homem), ganhador de um concurso, saiu com seu próprio nome. E, neste livro, referindo-se ao Rei D. Sebastião, mito da grandeza lusitana, volta a um assunto que sempre me encanta. Vereis: D. SEBASTIÃO, REI DE PORTUGAL
Louco, sim, Louco porque quis grandeza
Qual a sorte a não dá.
Não coube em mim minha certeza;
Por isso onde o areal está
Ficou meu ser que houve, não o que há.
Minha loucura, outros que me a tomem
Com o que nela havia.
Sem a loucura, que é o homem
Mais que a besta sadia;
Cadáver adiado que procria? (pela transcrição, Renata Pallottini )
Renata Pallottini
Poeta e dramaturga, autora de "Um calafrio diário", poesia, ed. Perspectiva; "Dramaturgia de Televisão", ensaio, Ed.Moderna; "Ofícios e Amargura" , romance, Ed. Scipione; "As três Rainhas Magas", infantil, ed. Brasiliense, entre outros títulos.
Indicação de livro
Duas frágeis mulheres, por Ana Luiza Fonseca Há muito tempo que conheço - e gosto demais - de Katherine Mansfield . Nasceu na Nova Zelândia (1888), a família mudou-se para a Inglaterra, onde ela cresceu e foi educada. Morreu cedo, aos 34 anos, tuberculosa. Deixou contos. Simples, não é? Não é não. Absolutamente. Já foi comparada a C. Dickens, a BBC fez um filme a seu respeito com Vanessa Redgrave no papel principal e nosso Vinicius de Moraes dedicou-lhe um soneto.Seu nome verdadeiro era Kathleen Beauchamps. E sobre ela, há incontáveis obras.O que ela tem de especial, é que nunca, jamais, se contentou em apenas " escrever". Escrever todo mundo que é alfabetizado, supõe-se ser capaz de fazê-lo. Mas Katherine exigia a forma literária profunda e perfeita. Tinha obsessão pela linguagem precisa, o que aliado a seu talento, tornou-a única na literatura inglesa. Virgínia Woolf dizia " ela é a única escritora que eu invejo". Para André Maurois, K.M. era inigualável. A Editora CosacNaify lançou agora alguns de seus contos, num belo volume justamente denominado Contos. E nele encontramos a fotografia da enganadora fragilidade dessa jovem bela e magra , de olhar inquisidor. Uma outra mulher surge agora nas livrarias- Irshad Manji - nascida em Uganda e criada no Canadá. Seu livro se chama Minha briga com o Islã ,publicado pela Editora Francis . E nele, essa muçulmana vigorosa, lésbica, jornalista,comentarista de TV, questiona frontalmente o "totalitarismo islâmico" , denuncia a " violação dos direitos humanos contra as mulheres e as minorias religiosas". Nega-se a ser "um autômato religioso".Chamada de " sapatona, porca, mentirosa" ou " camponesa indiana", Irshad Manji enfrenta toda uma sociedade religiosa islâmica e desnuda com desassombro "o domínio dos homens que não admitem lugar para as mulheres e menos ainda para a liberdade de expressão". Denuncia o islamismo " onde existe uma intimidação pesada". Corajosa, acusa o então ministro da justiça da Jordânia por haver ele proclamado com a maior frieza "Todas as mulheres mortas em casos de honra, são prostitutas. Acredito que as prostitutas merecem morrer." Convenhamos, a denúncia dos poderosos não é para qualquer um... E nós todas, vitimas de uma ou de outra ou de todas as formas desse tipo de opressão, seja por nossa inércia ou por nossa profunda ignorância, muitas vezes muito pouco servimos para construir e modificar a sociedade. Recomendo , pelo incrível talento e pela tremenda coragem, tanto Katherine Mansfield (Contos) como Irshad Manji. Sempre é tempo de se aprender alguma coisa na vida. Para torná-la maior e melhor. Ana Luiza Fonseca
Advogada e escritora
 Foto escolhida
Cassis, França Cassis, na Provence, sul da França, não é conhecida só pelo licor da fruta de seu nome, que misturado ao champagne vira o famoso kir royal.  A cidade é antiga, com ruas estreitas pavimentadas de paralelepípedos, com paredes de cimento e pedras. Em seu comércio, os tradicionais marzipãs, coloridos, imitando as mais variadas frutas, com perfeição artística invejável. Suas praias, no mar Mediterrâneo, podem ser deslumbradas do barco ou numa "vista aérea", lá do alto das montanhas. As cores da Provence estão sempre presentes na padronagem específica da região, com seu colorido peculiar, como na toalha do café da manhã, com a pomba comendo as migalhas. Mas o que mais se destaca nessa pequena província, provavelmente são as "Calanques" (calancas), formações rochosas naturais, vislumbradas pouco após a partida do porto. São enormes estruturas de calcário, como fiordes, com reentrâncias no continente, em toda a costa, que se estende até Marseille.  Texto e fotos de Dra. Luciana Nobile
 Crônica
Cotidiano de mulheres, por Maria Célia Wider Meu filho de seis anos disse que queria de presente no dia das crianças outra mãe. Outra, igual a mim, para ficar em casa com ele quando estou no trabalho. É uma graça o menino, não é? Fiquei até comovida com a demonstração de afeto dele.
Na verdade, acredito que minha filha mais velha também queira uma terceira versão de mim só para ela, que faz tudo para me testar. Sei exatamente o que ela quer: amor incondicional. Só isso.
Do ponto de vista do meu marido, ele não poderia ter escolhido melhor uma mãe para os seus filhos: dedicada, paciente, atenta às necessidades individuais deles, amiga, compreensiva, culta. Alguém que procura sempre se aprimorar, conhece um pouco de psicologia, acompanha as mudanças de costumes, enfim, é antenada, sabe o que se passa no mundo.
Do meu ponto de vista, às vezes sinto um cansaço tão grande, uma vontade de sumir no mundo.
Porque não bastasse me desdobrar pelas crianças, meu marido espera que eu me multiplique para atendê-lo. Parece que os homens acham que a maternidade é muito simples para as mulheres, questão de instinto.
Quer que eu seja companheira, capaz de compreendê-lo e apoiá-lo vida afora: esse é o seu projeto de vida em comum, o seu sonho de casamento. Não importa que trabalhe tanto quanto ele e partilhe a responsabilidade financeira doméstica (embora ele prefira que use meu salário para cobrir despesas miúdas dos filhos, enquanto ele arca com a infra-estrutura familiar, como gosta de dizer).
Mas ele precisa também de outra, menos intelectual na relação, dedicada a atender suas necessidades pessoais básicas, primárias, um jeito meio maternal, mas só para ele, que invente comidinhas de seu agrado e cuide de sua roupa com carinho, coisa que uma empregada nunca faz a contento. Que encontre todos os objetos que ele perde em casa e lembre onde ele guardou, não importa há quantos anos, qualquer documento ou papel importante. Que administre a casa, receba os amigos do casal e paparique a família dele.
Também preciso ser puta, pelo menos assim ele diz, quando me quer ousada e cheia de iniciativa. No fim de um dia exaustivo ele quer que eu derreta de desejo a um leve toque, com se fosse mágica. E, a todo custo, que eu tenha orgasmos múltiplos.
A maior satisfação da vida dele é me ver feliz. Sorte que sou eficiente. Tento ser boa mãe, boa esposa e feliz. Também sou uma profissional competente. Foi assim que aprendi: é próprio da mulher ser boa mãe, boa esposa e se dividir em várias funções, satisfeita com sua versatilidade.
Agora, se me perguntassem o quero para mim, teria pouco a dizer: quero só encontrar o meu ritmo nesta dança, fechar os olhos e deixar meu corpo se movimentar livremente. O meu ritmo. Maria Célia Wider
Escritora, com inúmeros livros ainda não publicados e outros em fase de elaboração. |