O uso das velas
Dra. Luciana Nobile

Estava no jornal: "Uma vela esquecida acesa foi a causa do incêndio que destruiu dez casas com telhado conjugado... Apesar da gravidade do incêndio, ninguém ficou ferido... pelo menos vinte famílias ficaram desabrigadas."

Essa notícia me fez lembrar de uma das cenas mais dramáticas que presenciei em minha vida, há muitos anos atrás, ainda quando estudante de medicina, nas salas do pronto socorro de cirurgia do Hospital das Clínicas em São Paulo. Pegou fogo numa favela, não sei a origem ou causa do acidente. Fomos informados que chegariam vítimas. Quantas chegaram, hoje eu não sei dizer, talvez não soubesse tampouco naquele dia. Minha mente e meu corpo se ocupavam com o atendimento de uma criança carbonizada, totalmente desfigurada, mais lembrava um carvão, agonizando, ainda viva... Eu usava o que restava de minhas forças para me manter de pé, sem chiliques, alerta. A dramaticidade do momento nunca se apagou de minha memória, apesar de tudo mais que aconteceu no pronto socorro naquele dia, e em inúmeros outros dias, terem se esvaecido.

O incêndio na favela teria sido criminoso? Quem sabe alguma dificuldade elétrica? Ou teria sido provocado pelas chamas de uma vela inocente? Não, essa resposta não tenho mais, se é que algum dia a tive.

Outro dia, quando passava visita em um hospital que não tenho o hábito de freqüentar, me encontrei com um colega que era médico-residente naquela ocasião, a quem não via há mais de vinte anos, e, não sei porque motivo, lhe perguntei sobre essa tragédia. Ele também estava no pronto-socorro naquele dia, e a lembrança dessa cena tão dramática tampouco lhe escapara da memória.

À vezes somos obrigados a usar velas, quando por algum motivo ficamos sem eletricidade. Quem não se lembra da situação de recorrer ao uso de velas nessa circunstância? Quando volta a luz elétrica, vemos com mais clareza quantas velas acendemos, muitas vezes em condições precárias, quebradas, em recipientes inadequados ou perto de local inflamável.

Outras pessoas acendem velas com outras intenções, religiões ou crenças.

Velas pequenas ou grandes, com intensidade variável das chamas, duração efêmera ou de vários dias, coloridas, aromatizadas, no prato, em castiçais, toda sorte de velas e "porta-velas".

Eu sempre tive um certo receio das velas. Será que por me terem ensinado a não brincar com fogo, porque " criança que brinca com fogo de dia, faz xixi na cama à noite "? Ou será pelo medo transmitido pelos mais velhos, seja lá de que modo expressado.

No incêndio da notícia no jornal, ninguém se machucou, ninguém morreu. Mas, e as suas casas, seus móveis, louças, fogões, geladeiras, roupas, etc, o que restou de tudo isso? Tinham seguro de suas casas? Onde dormiram nos dias subseqüentes? Onde comeram? Tiveram a disponibilização de uma cama? Tiveram o que comer? Como prosseguiram suas vidas? Quais teriam sido os dramas que se sucederam?!

Lembro-me de uma história que ouvi em meu consultório, contada por uma paciente, cujas imagens, apesar de não ter visto, nunca saíram de minha imaginação. A mulher, sofrida, deprimida, amargando dias terríveis de sua vida, perdera a mãe há pouco tempo num incêndio provocado pelas chamas de uma vela acesa que tombara em sua cabeceira, depois de deitada, à noite no quarto. Quis o acaso que a senhorinha dormisse com uma camisola de tecido sintético, presente da filha. Afora a amargura da dor causada pela perda de um ente tão amado e pela percepção da agonia materna, essa fatalidade deixou intenso sentimento de culpa. A paciente se culpava pela fatalidade do uso da camisola sintética. Mas ela nunca foi responsável pelo hábito da progenitora de dormir com uma vela acesa.

As chamas de uma inocente vela, que pode cair ao mais leve golpe de ar, por cortinas que se deslocam com o vento derrubando-a, ou elas mesmas que se inflamam com as chamas, ou então talvez, quando instalada no criado-mudo, em decorrência de um travesseiro que escorregue ou um empurrão, de um movimento mal calculado, de quem dorme, espalhando o fogo de suas chamas por todo o ambiente.

Quem sabe nem se trate de queda da vela, mas sim pela presença de algo bastante suscetível ao fogo, com combustão facilitada, muito próximo de seu lume, tal como a cúpula de um abajur ou o tecido das cortinas?

 

Que essas histórias sejam suficientes para alertar as pessoas que cultivam o hábito de usar velas, mesmo que apenas como enfeite em dia de festa, ou para criar "um clima", um ambiente intimista, a terem mais cuidados com esse procedimento aparentemente tão inocente.

Dra. Luciana Nobile
E-mail: luciananobile@brevesdesaude.com.br

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