Penetração vaginal impossível: isso existe mesmo?
Profa. dra. Yara Monachesi

Algumas vezes, em palestras ou aulas, descrevo situações em que mulheres procuram os terapeutas sexuais com a queixa de não conseguirem ser penetradas - muitas vezes essas mulheres são casadas há muitos anos, descrevem um relacionamento muito positivo com seus parceiros, mas relatam que não conseguiram jamais ser penetradas por ele, embora tenham vida sexual ativa.

A atividade sexual para essas mulheres abarca toda a gama de carícias e práticas sexuais, exceto a penetração. Esses são os casos de vaginismo.

A poderosa contração muscular

As mulheres 'vagínicas', como são chamadas as portadoras de vaginismo, geralmente apreciam a atividade sexual, apresentam muito desejo, mas sofrem de tanta ansiedade que comprimem, involuntariamente, os músculos da vagina e toda a musculatura dos genitais, de tal forma que fica impossível a penetração, tanto do pênis quanto de outros artefatos empregados no relacionamento sexual, assim como quando do uso de instrumentos utilizados pelos médicos em exames ginecológicos.

O estreitamento torna-se tão acentuado que, freqüentemente, nem mesmo um cotonete pode ser introduzido. Algumas mulheres referem dor nas tentativas de penetração, mas a sensação dolorosa deve-se à excessiva contração muscular.

O medo

A base dessa reação frente à possibilidade do relacionamento sexual é o medo - muitas vezes encontramos esse quadro em mulheres que foram, no passado, vítimas de abuso sexual, mas também é possível que os sintomas apareçam em mulheres que não foram vítimas de abusadores, mas que de algumas forma associam o ato sexual a uma violência, inclusive fantasiando que o pênis vai estraçalhar seu corpo ou parte dele.

Este quadro é puramente psicológico, embora resulte numa real incapacidade de ser penetrada. As mulheres que sofrem desse mal procuram quase sempre um ginecologista, acreditando possuir uma malformação, ou algo orgânico que justifique a sua situação; os ginecologistas têm grande facilidade para fazer o diagnóstico, devido à excessiva contração muscular que dificulta o exame físico e orientam ou encaminham suas clientes para atendimento psicológico.

O tratamento

A terapia deve ser encaminhada focando os dois principais aspectos envolvidos: a dificuldade em relaxar a musculatura, permitindo a penetração e o medo subjacente. São dados exercícios que visam levar a mulher a introduzir pequenos objetos ou seus próprios dedos no orifício vaginal, ao mesmo tempo que se procede a aceitação de seu medo, tranqüilizando-a.

A participação do marido é muito importante, principalmente para que ele possa rever sua participação nesse processo. A experiência de consultório revela que os companheiros de mulheres vagínicas freqüentemente apresentam quadros complementares, sendo eles próprios portadores de disfunções sexuais que ficam ocultas pelo quadro apresentado pela mulher. Assim, um homem que tenha dificuldade em manter seu pênis ereto o tempo necessário para levar a termo um ato sexual, é 'beneficiado' pelo quadro apresentado pela companheira, que permanece na posição de 'culpada' pelo fracasso da vida sexual.

Encontramos dificuldade em mencionar pesquisas envolvendo o quadro de vaginismo porque ocorre uma cumplicidade entre o casal, que determina que o assunto se configure como segredo de ambos. É esta dinâmica do casal que justifica o fato de procurarem terapia sexual muitos anos após convivência em comum, geralmente quando desejam ter um filho.

Cogita-se que haja uma indiferenciação no desenvolvimento sexual dessas mulheres, o que as coloca em uma situação peculiar: se, por um lado, desejam o parceiro do sexo masculino, por outro lado não conseguem entregar-se, em quanto fêmeas, a ele; e seus parceiros? Não mereceriam também consideração do mesmo tipo? Existem casos que nos levam a crer que o homem não aprecia muito o ato sexual com sua esposa, embora não demonstrem, socialmente, inclinações homossexuais. Encontrei, em minha prática clínica, situações em que o casal demonstrava muita disponibilidade para sessões de carícias, mas que não somente a penetração era impedida - supostamente pela mulher - mas que o homem manifestava muito nojo pelo sexo oral e pelo beijo erótico (beijo francês).

Profa. dra. Yara Monachesi
Doutora em Psicologia pela PUC-SP, Coordenadora do curso de pós-graduação lato sensu em "Terapia sexual" da FAMERP (Faculdade de Medicina de São José do Rio Preto), psicoterapeuta e terapeuta sexual.
E-mail: ymonachesi@uol.com.br

E-mail: luciananobile@brevesdesaude.com.br
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