Breves

Literatura impura
"A idéia "

A IDÉIA

Acabou-se a intolerância,
Acabou-se;
Acabou-se a prepotência,
Acabou-se.
Acabou-se a ignorância,
Acabou-se!

Não queremos mais o mundo
Como se não fosse.
Acabou-se!

Viver uma realidade
Contra a qual nada se pode?
Sonhar um mar
Depois voltar à tona
Vendo o horizonte
Cada vez mais longe?

Que é o que te sujeita, irmão,
Em nome de todos?

Esse poder é o Estado
Que o cidadão escolhe
Para seu bem, para seu gáudio
Para sua ordem.

Escolheste algum Estado
Amor puro da rosa?
Escolheste a tua flor
Ou apenas acolhes
Aquela que parece a mais formosa?

Ah, não ter nenhum Estado
Ser apenas a pessoa.
Numa luta companheira
Ser o portador da Rosa.
Ser um entre muitos seres
E todos a mesma coisa.

Todos sentados à roda
De uma Idéia alentadora;
No fogo do tempo longo
Trocaríamos histórias]
E daríamos bocados
E daríamos bocejos
E daríamos risada.

Assim é estar na escola
E assim é comer em casa
Quando há casa e quando há como.

Operário das Idéias,
Hás de ter o que é preciso !

Sem padrão e sem patrão,
Com Justiça.

Renata Pallottini
Poeta e dramaturga, autora de "Um calafrio diário", poesia, ed. Perspectiva; "Dramaturgia de Televisão", ensaio, Ed.Moderna; "Ofícios e Amargura" , romance, Ed. Scipione; "As três Rainhas Magas", infantil, ed. Brasiliense, entre outros títulos.

Indicação de livro
Um livro azul:"Romanceiro da Inconfidência", de Cecília Meirelles.

Sabem por que esse título? Porque a gente anda precisando do azul dos horizontes, do azul da inocência, do azul da sinceridade, do céu despoluído, da visão das estrelas, do destemor da alma aberta e limpa.

Sei de mim. Ando precisada de algumas esperanças, de confiabilidade, de honestidade (não meia ou quase,mas inteira). Necessito demais acreditar nas pessoas e não me desapontar depois. Necessito muito de todos os meus amigos, que possamos, silenciosamente, sorver um vinho e não dizer mais nada e nem gemer, porque nada mais se pode fazer a não ser remendos.

Passeei com crianças, ouvi minhas músicas, carreguei meu gatinho, mas tudo isso com uma absoluta tristeza e principalmente, com uma grande incerteza no futuro.

Reguei meu jardim, podei as roseiras, ouvi meu amigo tocando, mas continuava arqueada diante das notícias, por mais que me empenhasse para que não fosse assim.

Finalmente, numa tarde fria e escurecida (muito mais do que minha alma), reencontrei Cecília Meireles. A linda Cecília, de confiantes olhos verdes.

Alguém me deu esse presente de ouro: Romanceiro da Inconfidência, que Cecília escreveu com precisão e onde conta a história da valentia de um homem que por ideal, sem armas nem nada, lançou-se de peito aberto e coragem patriótica contra os tiramos de seu tempo. Ah...

Além disso, Renina Katz ilustrou o livro, o que redobra o maravilhoso.

Nos tempos que correm, é um bálsamo essa história comovente, escrita assim , acompanhada de todas as cores que Renina Katz entende como as melhores.

É um livro azul. Um dos poucos.

Procurem por ele e respirem , enfim, o dulçor que somente as almas genuinamente brasileiras compreendem. Comovam-se. Chorem talvez. Que são outros os tempos, porém quem sabe, não estarão assim perdidos.

Ana Luiza Fonseca

Romanceiro da Inconfidência
Cecília Meireles
Desenhos: Renina Katz
Edusp

Crônica
A Constituição européia

No final de maio, a França rejeitou, por referendum, a Constituição Européia. Desde então, as cabeças pensantes do velho continente buscam explicações. O que se pretendia, com o Tratado proposto, era fazer da Europa uma potência econômica, com cerca de 450 milhões de habitantes, para concorrer em pé de igualdade com os Estados Unidos e a China.

Há uma infinidade de aspectos envolvidos na questão européia, assunto que vem sido discutido, com altos e baixos, pelo menos desde Carlos Magno (742-814). Não é meu intuito aqui entrar nessa polêmica.

Acompanhando o noticiário e os debates a respeito, o que me chamou a atenção nesse imbróglio, no entanto, foram determinadas análises sobre as motivações dos franceses para o contundente "não", que derrubou o governo francês e tirou o sossego de europeus de diversos países. O voto francês foi considerado um protesto contra a política econômica do país, o desemprego e a perda do poder aquisitivo.

Mas não apenas isso. A grande crítica que se faz é que os franceses não querem trabalhar - eles têm um regime de 35 horas semanais de trabalho - e, principalmente, não querem abrir mão do sistema de benefícios sociais do país. Os que recusaram a constituição, temem ser engolidos pela globalização da economia. Ou seja, são anacrônicos, pois o mundo já não funciona mais como eles querem.

Eu pergunto, será que eles estão errados?

Em termos geopolíticos, econômicos e globais, é possível que estejam.

Claro que a consulta por referendum não era sobre como os franceses gostariam de 'levar' a vida. Mas, talvez, eles possam ter dado esta resposta, ao refutarem a ambição de serem uma superpotência eficaz, produtiva, dinâmica, competitiva. Devagar com o andor, eu diria, que os pés são de barro.

Deixando os franceses e a questão européia de lado, volto a perguntar: para que tanta pressa? Aonde vamos?

Como humanidade, produzimos bens e serviços numa velocidade estonteante. Mas no mundo, a cada dia, milhares de pessoas morrem de fome e vivem na miséria. Os avanços tecnológicos nos permitem façanhas dignas dos deuses. Mas cada vez mais nos escravizamos a pequenos artefatos úteis e simpáticos. Conquistamos o espaço e fazemos apodrecer o meio ambiente, do qual depende nossa sobrevivência.

Algo está errado nessa equação: hoje, somos tão poderosos quanto ansiosos e deprimidos. Talvez, no afã do progresso, tenhamos tomado um desvio, decerto sedutor, e reduzido nossa dimensão humana ao aspecto mais primitivo e simplório do consumo desenfreado.

Basicamente, dividimo-nos entre os que podem e os que não podem consumir, sempre querendo consumir mais, uns e outros. Consumimos produtos, serviços, valores, conceitos, afetos, emoções, crenças, modelos, imagens, expectativas, esperanças, medos . Homo consummator , homem destruidor. E precisamos reconstruir a cada dia, seguir em frente, girar a roda.

Sempre com muita pressa, como se o movimento e a correria do dia-a-dia fossem não apenas uma necessidade, mas um fim em si mesmos. Como se a agitação gerasse sentido para a vida.

E no que nos toca, a nós, mulheres, nessa engrenagem, pergunto: que produto, imagem ou modelo de nós mesmas estamos produzindo, consumindo e oferecendo ao mundo?

Produzindo produto, consumindo imagem, oferecendo modelo. Será por aí o caminho?

Maria Célia Wider
Escritora, com inúmeros livros ainda não publicados.

E-mail: luciananobile@brevesdesaude.com.br
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