| Câncer de Ovário: "A Doença Silenciosa"
Prof. dr. Ayrton Roberto Pastore A mulher, após o período reprodutivo, passa por uma série de alterações orgânicas e hormonais. Com a idade mais avançada, está mais sujeita a doenças metabólicas, do tipo diabetes e obesidade e, sistêmicas, como a hipertensão arterial. Aumentam igualmente as doenças do aparelho reprodutivo feminino, de forma especial o câncer da mama e o do endométrio. O da mama pode ser detectado nos exames de rotina pelo ginecologista, ou pelo auto-exame, quando a própria paciente percebe a presença de nódulo. Indiscutivelmente a medicina laboratorial possui grande importância nesta detecção, principalmente a mamografia, que permite diagnosticar o câncer em fase mais precoce, antes mesmo da existência de nódulo.
O tumor de endométrio, mais freqüente em mulheres obesas, hipertensas e diabéticas, geralmente se acompanha de algum sangramento irregular ou, em mulheres que não mais menstruam, depois da menopausa, a presença de sangramento, em qualquer quantidade ou duração. Nessas circunstâncias, as alterações ultra-sonográficas são sugestivas.
Em idade mais precoce, temos o câncer do colo uterino, passível de prevenção, através do diagnóstico e tratamento da infecção pelo HPV e através da realização rotineira dos exames de Papanicolau e colposcopia. O câncer de ovário As mulheres a partir dos 50 anos, de forma especial nas 5ª e 6 a décadas de vida, estão na idade mais crítica de apresentar o câncer ovariano.
A hereditariedade é sem dúvidas o fator de maior importância. Se na família mãe ou irmã já teve a doença, é indispensável a realização de exame ginecológico preventivo, com a feitura de exames subdisiários (CA-125 e a ultra-sonografia pélvica e transvaginal, com o Doppler colorido).
O câncer de ovário clinicamente é mais difícil de ser identificado, podendo passar desapercebido pela paciente em seus estágios iniciais, devido à ausência de sintomas. Daí ser chamado de doença silenciosa, aquela que cursa escondida, só permitindo o seu diagnóstico quando já em fase adiantada.
Entretanto, podem os sintomas e sinais existir, mas como são vagos, inespecíficos e aparentemente de origem não-ginecológica, são tratados, até que a doença apareça com características inconfundíveis, mas já em estádio avançado.
Os sintomas mais comuns são: dor abdominal ou pélvica, aumento do volume abdominal, queixas intestinais, hemorragia genital, queixas urinárias pela compressão da bexiga pelo tumor e, mais adiante, perda de peso. Os sintomas gastrointestinais são conhecidos como "síndrome de indigestão da meia-idade". Muitos tumores ovarianos são tratados com antiácido, devido a paciente referir azia (dispepsia), má digestão e flatulência, decorrentes da irritação peritonial (folheto que reveste as vísceras e a cavidade abdominal).
Os marcadores tumorais, principalmente o antígeno CA-125, colhidos por meio de amostra de sangue da paciente, são úteis em rastrear na população as mulheres com maior risco para desenvolver a doença ovariana. Entretanto, o CA-125 pode estar anormalmente elevado em doenças benignas e comuns, tais como a endometriose.
O ultra-som no diagnóstico do tumor maligno do ovário
O exame de ultra-sonografia transvaginal (USTV) é uma das principais ferramentas que dispomos para o diagnóstico do câncer de ovário. Muitas pacientes estão familiarizadas com o exame, pois já o realizaram em alguma época da vida.
Por ser indolor, não invasivo e apresentar boa sensibilidade, é o método de imagem inicialmente escolhido para detectar as alterações do aparelho reprodutor feminino no climatério.
Se a paciente está em grupo de risco (antecedentes pessoais, antecedentes familiares, faixa etária, cisto ovariano de controle), realizar a USTV com Doppler colorido anualmente. Não deve ser utilizada como teste de rastreamento em grupo de baixo risco (idade abaixo dos 40 anos, não climatéricas, sem AF ou AP).
A grande maioria dos tumores ovarianos são císticos, isto é, apresentam coleções (conteúdo líquido) e, menos freqüentemente, são sólidos. O estudo da morfologia destes tumores é possível ser estabelecido na ultra-sonografia, sendo este um dos principais critérios para diferenciá-los.
Os parâmetros morfológicos ultra-sonográficos avaliados são:
dimensões conteúdo do tumor (cístico, sólido ou misto), que pode ser homogêneo e heterogêneo, também chamado de textura espessura da parede do cisto (fina ou espessa) superfície do cisto (lisa ou irregular) presença de septações ou traves no seu interior (que podem ser finas ou espessas, homogêneas ou heterogêneas) formações sólidas que crescem na parede do cisto, chamadas de papilas (podem ser internas e/ou externas).
Atualmente, com os avanços tecnológicos, podemos complementar a USTV com o Doppler colorido, que possibilita o estudo dos vasos contidos no interior destes tumores. Os tumores malignos apresentam vascularização anormal onde os vasos possuem calibres diferentes, trajetos tortuosos e terminações irregulares ou amorfas. Esta análise pode ser ampliada com o estudo tridimensional do tumor, nova modalidade de ultra-sonografia que ganha cada vez mais aceitação no meio científico e auxilia na diferenciação entre os tumores malignos e benignos.
Em nossa experiência (grupo do HC - Ginecologia e Radiologia), o Doppler apresentou baixa sensibilidade (33%, muitos falso-negativos) e alta especificidade (97,5%, poucos falso-positivos), mas ao associarmos o CA-125, a sensibilidade aumentou para 80%, embora a sensibilidade tenha diminuído para 73,9%. Atualmente, com a angiossonografia 3D, alguns grupos referem sensibilidade de aproximadamente 100% (é muito cedo ainda para afirmarmos este valor).
Outros achados ao exame ultra-sonográfico, como ascite (líquido livre no abdômen, entre as alças intestinais e as vísceras), linfonodos junto à artéria aorta e outras artérias pélvicas, lesões (nódulos) hepáticas, e comprometimento das alças intestinais ou do peritônio, indicam doença avançada e estão associados à sintomatologia da paciente e aos achados clínicos do exame ginecológico.
Outros métodos de imagem podem ser utilizados para o seu diagnóstico ou complementação diagnóstica, tais como a tomografia computadorizada e a ressonância magnética da pelve e abdômen. Estes exames, principalmente a ressonância, são importantes para verificar o grau de extensão da doença para fora da pelve (estadiamento da doença) e orientar o tipo de tratamento.
O mais importante é realizar o exame preventivo, na tentativa de fazer o mais precocemente possível o diagnóstico do tumor de ovário, para poder instituir tratamento adequado, que permita as melhores taxas de sobrevida e qualidade de vida à paciente.

Prof. dr. Ayrton Roberto Pastore
Diretor Clínico da Unidade de Estudos em Ultra-sonografia e Medicina Diagnóstica (UEU Diagnósticos). Professor Livre-Docente do Departamento de Radiologia da USP. Especialista em Medicina Fetal (Título outorgado pela FEBRASGO).
Site: www.ueu.com.br |