DST: HPV - Parte II - Prevenção
Dra.Luciana Nobile e Profa. dra. Maricy Tacla

A repressão sexual faz parte de um plano de maior controle social, orquestrado por forças conservadoras, fundamentalistas, que pretendem, entre outros absurdos, calar aqueles que foram vítimas de alguma forma de assédio sexual, eternizando os desvios perversos da sexualidade. (LN)

A sexualidade na prevenção do HPV

Prevenção é o processo de evitar que determinada doença ocorra, individualmente ou numa população. É o que busca incansavelmente a Medicina Preventiva, tantas vezes negligenciada nos currículos das faculdades.

Existem medidas altamente eficientes para a prevenção de inúmeras doenças, porém, para outras patologias, nem tanto.

O HPV (human papilloma virus), por suas características epidêmicas universais e do risco potencial de malignização, provoca verdadeiro pânico nas mulheres, interferindo diretamente em sua vida sexual. Qual o prazer que podemos ter, se antes de orgasmar pensarmos no risco que estamos correndo de adquirir uma verruga genital ou uma infecção precursora do câncer do colo do útero? Sim, adotamos o verbo orgasmar, imitando Hite, como melhor palavra para representar o gozar sexual, para conceber o orgasmo.

Não somos as únicas a acreditar que o exercício da sexualidade seja bom e saudável, quando solitário ou compartilhado. Quando solitário, também é sexo de primeira qualidade, desde que realizado sem culpas, sem preconceitos. Entretanto, se pudermos desfrutar da companhia de alguém com quem tenhamos afinidade sexual, o sexo compartilhado pode se tornar mais gratificante, mais prazeroso.

Mas relacionar-se sexualmente sem proteção contra as DST (doenças sexualmente transmissíveis), é temeridade. É colocar a saúde nas mãos do acaso, expor nosso corpo à possibilidade de aquisição de uma ampla gama de doenças.

Assim, devemos estar atentas também à prevenção da infecção pelo HPV, a DST mais freqüente no mundo todo.

O principal fator de risco na transmissão do HPV, estatisticamente, é o número de parceiros sexuais que a mulher tem durante a sua vida.

Os pais, então, podem se aproveitar desse dado para recomendar a suas filhas que adiem o início da vida sexual e não tenham relações sempre que o desejo despertar. Tecnicamente, estariam certos, mas como encarar isso na prática do dia-a-dia? É regredir aos modelos arcaicos de repressão sexual? É recusar o direito da mulher de também ter prazer sexual, invalidando toda a luta feminista pelos direitos à igualdade, reforçando o conceito de que o exercício sexual seja privilégio do masculino?

Essa discussão é filosófica e possivelmente esse não é o momento mais adequado para nos alongarmos em sua exposição. Acreditamos, entretanto, que é uma questão a ser refletida por todos.

A camisinha na prevenção do HPV

Não nos cansamos de enfatizar a importância do uso do preservativo, masculino ou feminino, no combate às DSTs em geral.

É motivo de desgaste e irritação ouvir a expressão rançosa e machista de que "transar com camisinha é como chupar bala com papel".

Para nós isso esconde ou acoberta o medo de mentes incultas e inseguras de perderem a ereção no momento da aplicação do preservativo. Afinal, isso pode ocorrer sim, mas qual o mal que há em ter que reiniciar a estimulação do pênis, para obter a ereção almejada? Uma rápida manipulação da glande em geral é suficiente. Isso nem de longe significa menor virilidade, conforme algumas pessoas com mentalidade deformada possam imaginar. Deve fazer parte da cumplicidade do sexo compartilhado, da confiança, do prazer.

O preservativo masculino evita a transmissão da AIDS em quase que cem por cento das vezes. Portanto, consideramos irresponsáveis, criminosos, aqueles que se atrevem a sugerir o não-uso da camisinha. Criminosos, porque estariam dificultando a prevenção de uma doença que potencialmente pode levar à morte.

Previne também a transmissão de outras DST, tais como a infecção pelo Ureaplasma e pela Gardnerella, tão freqüentes em nosso meio. Entretanto, não é tão eficiente na prevenção do HPV!

E porque no HPV a camisinha não é tão generosa como na prevenção do HIV (vírus da AIDS)?!

Porque o HPV pode estar instalado na bolsa escrotal e, para o escroto, ainda não temos preservativo. Está aí uma sugestão aos pesquisadores e fabricantes.

Então, como lidar com essa casualidade, que pode ser tão nociva, permitindo que o vírus se instale na vulva e daí caminhe para dentro da vagina, contaminando também o colo uterino? Situação essa que pode ocorrer no relacionamento sexual sem penetração, portanto, também na prática do sexo seguro (sem penetração) e entre mulheres homossexuais.

A infelicidade de existir HPV contaminando a bolsa escrotal é uma realidade. Daí impor-se, no diagnóstico do vírus, que se considere essa possibilidade, na realização dos exames de investigação.

Alguns tipos de HPV provocam verrugas, mas mais freqüentemente a infecção pelo HPV ocorre sem sinais ou sintomas, o que determina a má vontade por parte dos parceiros em se submeter à avaliação urológica e realizar os exames pertinentes, no esforço de se fazer o diagnóstico.

Mas qual é a nossa experiência em consultório, diante da orientação da paciente com HPV? É muito mais freqüente que desejaríamos ou seria conveniente, que o homem fuja de participar da doença da companheira, que em realidade é uma doença do casal, assim como qualquer outra DST. Foge recusando-se a se submeter aos exames de pesquisa do HPV, não acompanha o tratamento, por vezes penoso, de sua companheira e muitas vezes, cria um clima insustentável na relação, que acaba por não se sustentar. Atua como se a mulher fosse a responsável exclusiva pela afecção, e se esquece de suas próprias responsabilidades.

O período de latência entre a exposição inicial ao HPV e o desenvolvimento do câncer do colo uterino pode ser de meses a anos, mas freqüentemente, de vários anos, o que permite uma abordagem adequada e oportuna para evitar as complicações de sua ocorrência.

Apesar da correlação expressiva entre o HPV de alto-risco e o câncer do colo, cerca de 80% das infecções são assintomáticas e resolvem sem tratamento. Portanto, sem pânico, mas com sexo consciente. O HPV pode determinar também o câncer da vulva e do canal anal.

E a vacina para o HPV?

A vacina eficiente e sem riscos a quem a recebe é o que norteia as pesquisas em torno das infecções virais. Eficiente no sentido que o organismo adquira defesa contra os vírus e impeça a sua invasão (infecção). Segura, que não provoque efeitos colaterais de monta.

Dessa maneira, hoje contamos com inúmeras vacinas, inexistentes até há poucos anos atrás. É o caso das vacinas para gripe e para as hepatites A e B.

Pessoas vacinadas (imunizadas) para gripe ainda assim podem apresentar a doença, porque os vírus da gripe são inúmeros, então não se obtém vacinas que permitam imunidade contra todos eles.

Já nas hepatites A e B, a vacinação está quase perfeita, no sentido de que imuniza a grande maioria da população que a recebe. Poucos são os casos que não conseguem desenvolver anticorpos contra esses tipos de hepatite, após a vacinação.

Para a hepatite C ainda não existe vacina e sua principal via de transmissão é a transfusional, de sangue e derivados.

Os tipos de HPV são divididos em dois grupos, em função de seu potencial e habilidade em induzir aos tumores anogenitais. Alguns tipos, chamados de alto-risco, estão associados um maior risco de evolução para lesões intraepiteliais mais graves e para o câncer. Desses tipos, destacam-se o HPV 16 e o 18, como mais freqüentes e mais carcinogênicos.

Então, as pesquisas se direcionaram para produzir vacinas contra esses tipos específicos do HPV, já que o processo de investigação de tantos tipos virais demoraria muito para se efetivar. As vacinas em estudo, perto de serem vendidas no mercado, parecem ser bastante eficazes na prevenção do vírus.

Existem evidências de que também apresentam bons resultados terapêuticos, quando aplicadas em mulheres que já são portadoras da infecção e exibem alterações celulares importantes no Papanicolau.

A prevenção do HPV significará muito mais do que uma redução nos custos da pesquisa e do tratamento dessa DST. Será um alívio para o exercício da sexualidade, minimizará o sofrimento daquelas que já se infectaram e evitará o desespero daquelas que seriam contaminadas pelo vírus.



Dra. Luciana Nobile
E-mail: luciananobile@brevesdesaude.com.br

Profa. dra. Maricy Tacla
Médica assistente doutora da Clínica Ginecológica do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP).
Doutora em Ginecologia na FMUSP.
Clínica privada há mais de 20 anos, telefone (11) 3262-1547.

E-mail: luciananobile@brevesdesaude.com.br
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