| Tatuagens e piercings
Dra.Luciana Nobile As tatuagens e os piercings estão ficando cada vez mais populares entre jovens do mundo todo, como adereço ou forma de aumentar a sua individualidade.
E não pensem que isso é alguma novidade, porque existem evidências de que a tatuagem tenha sido realizada já no ano 2000ac, no Egito. Muitas culturas viam a tatuagem como sinal de status, outras como símbolo religioso, e também como um rito de passagem para homens e mulheres.
Por outro lado, as culturas ocidentais têm encarado tatuagens e piercings como procedimentos inadequados, "coisas" de presidiários ou de classes sociais mais baixas. Esses conceitos têm induzido inúmeras discussões e desavenças entre pais e filhos.
Eu, pessoalmente, fico um pouco dividida entre curtir a beleza dos adornos que vejo e aflita com as suas eventuais complicações. Daí acreditar que devamos discutir mais sobre onde fazer esses procedimentos, técnicas empregadas, cuidados de higiene, etc. Acho que devemos colocar de lado qualquer preconceito, estudar o assunto, para que possamos nos preparar para orientar os jovens e adultos que se dispõem a fazer tatuagens ou piercings. Meu objetivo é que os riscos e as complicações sejam minimizados com uma melhor compreensão e aprendizado sobre as técnicas. Tatuagens A tatuagem é produzida com a introdução de quantidades ínfimas de pigmentos ou tintas na pele, utilizando-se pequenas engenhocas desenvolvidas para o procedimento. É considerado um método permanente, apesar de desbotar com os anos, pois a sua retirada é um procedimento complexo.
Estima-se que cerca de 3 a 5% da população seja portadora de tatuagens. No consultório tenho visto as tatuagens mais variadas, de uma só cor ou coloridas, com desenhos incríveis. As pacientes me contam que elas escolhem o que querem que seja tatuado e em que parte do corpo. São nucas, braços, dorsos, virilhas, púbis, pernas e tornozelos tatuados. Áreas expostas ou escondidas. Enfim, cada uma escolhe a localização de acordo com as suas expectativas.
Já vi inúmeros tipos de passarinhos, coqueiros, letras góticas (?), coisas escritas em português ou línguas exóticas, cruzes, etc. Vai muito da criatividade e habilidade do tatuador.
Algumas se queixam de que tenha sido muito doloroso, outras dizem que não sentiram quase nada de dor e que vão fazer muitas outras ou que pretendem fazer outras mesmo que tenha sido penoso. A dor varia de pessoa a pessoa e também de acordo com a sua localização: áreas mais inervadas usualmente são mais sensíveis.
Não tenho visto mulheres arrependidas das tatuagens que fizeram. Geralmente estão felizes, envaidecidas e gostam de exibir os seus adornos. Porém, entre minhas pacientes não tem nenhuma com aquelas tatuagens extensas, em que a maior parte do corpo está tatuada, e pouco se enxerga da pele original.
Em pessoas de pele clara, geralmente tenho observado desenhos muito coloridos, alegres. Contam-me que em pessoas de pele mais escura as cores não se destacam, daí optarem por uma cor única e escura, quando muito bronzeadas ou de tez mais escura. As tatuadas são orientadas para tomar muito cuidado com a exposição ao sol, porque ele desbota as tatuagens. Percebo que algumas meninas protegem a tatuagem com protetores solares e outras até com ataduras. A segurança das tatuagens Os locais (espaços físicos) que praticam a tatuagem devem ser limpos e ter o seus equipamentos adequadamente higienizados e/ou esterilizados. Agulhas, quando empregadas, devem ser descartáveis, de uso individual. Aparelhos de injecção, devidamente esterilizados. A contaminação pode também estar nos pigmentos utilizados.
Se ao entrar num ambiente de trabalho de tatuadores observar desorganização ou sujeira, tenha a desconfiança de estar em local errado.
Os tatuadores devem ter alguns cuidados, como usar luvas e máscaras durante o procedimento e informar todos os cuidados com o local tatuado nas horas e dias seguintes ao procedimento. O local de aplicação da tatuagem deve ser previamente limpo, criteriosamente. Não existe uma padronização de ensino e treinamento para tatuadores, sobre noções básicas de esterilização, assepsia e higiene.
Apesar dos estudos terem resultados controversos quanto à transmissão de doenças através da tatuagem, devemos tomar todos os cuidados possíveis para evitar a infecção bacteriana local e a transmissão de vírus de hepatites, principalmente a B e a C, e do vírus HIV (da AIDS). Discute-se sobre a contaminação através de agulhas e da tinta ou do pigmento compartilhado.
As reações à tatuagem geralmente são locais, com sinais de hipersensibilidade, inflamação local, crostas, coceira e descamação da pele. Pode ainda ocorrer infecção, urticária e formação de granulomas de corpo estranho. Na atualidade, alerta-se para a ocorrência de queimadura local quando pessoas que empregaram tinta metálica nas tatuagens se submetem à ressonância magnética.
As indicações médicas da tatuagem A tatuagem pode ser usada em algumas circunstâncias, algumas muito eficientes, outras nem tanto. Citam-se: identificação de local de lesões, simulação de pigmentação de pele natural em procedimentos reconstrutivos, vitiligo, perda de cabelo, disfarçar cicatrizes e reparo de falhas em córneas artificiais. Cita-se também identificação de cadáveres em situações particulares.
Outro dia me ocorreu um uso, mas não encontrei citações a respeito: quando da plástica mamária (mamoplastia) redutora, as aréolas ficam artificialmente com as bordas muito regulares. Imagino que poderíamos fazer tatuagem na periferia das aréolas, promovendo discreto sombreamento, de acordo om a cor da aréola de cada mulher.
Piercing O piercing é a perfuração de pele e/ou mucosa, usualmente para aplicar jóias ou bijuterias de aspectos variados. São artefatos de prata ou ouro, de tamanho e forma variada. Ao contrário da tatuagem, envolve maior risco de complicações.
Muitos são aplicados nas orelhas, umbigo, nariz e papilas mamárias. Alguns são apenas um pequeno pontinho de brilhante na parte externa da asa do nariz. Outros, transfixam a parte interna, com pingentes variados.
Homens também têm aplicado brincos em suas orelhas. Se diante das tatuagens sinto uma certa tendência a ser creditada como procedimento de "macho", nos piercings o preconceito é pelo lado oposto, de que seria "coisa de veado". Esses convencionalismos são mais comuns entre os mais velhos.
Muitas vezes o(a) jovem coloca piercing ou faz tatuagens em partes cobertas do corpo, para esconder dos pais e evitar conflitos. Em outras circunstâncias, pai ou mãe acompanham suas crias na escolha e aplicação de seus adereços.
Existem inúmeros trabalhos de investigação científica relacionando essas práticas a inúmeras complicações, tais como infecção bacteriana a partir do local de manipulação, evoluindo, nos casos mais graves, para endocardite (infecção de válvulas cardíacas) ou até para septicemia (infecção bacteriana generalizada) e óbito. Tem sido citada, igualmente, a transmissão de infecções virais, como por exemplo, as hepatites B e C e o vírus HIV, da AIDS. Raros casos de tétano foram documentados. Confesso que às vezes fico bastante espantada: alguns tipos de piercing que tenho visto, para serem aplicados exigem conhecimentos de técnica cirúrgica! Fico pensando nas complicações infecciosas daqueles que atravessam cartilagens da orelha (um mesmo adorno cruzando a orelha em dois pontos) ou do nariz, se a assepsia for negligenciada. A infecção local pode necrosar os tecidos e, afora a perda de substâncias, evoluir para infecção generalizada.
Algumas pessoas colocam o piercing na língua, área de grande população bacteriana, que predispõe à infecção. Na língua pode interferir ainda com a fala e com a dentição ou oclusão dentária.
Outros, aplicam o piercing nos genitais. Se ele se enroscar num zíper, pode fazer grandes estragos. E, em casos de infecção, a perda de tecidos por necrose será dramática.
Então, meu recado para quem está estudando a aplicação desse tipo de adorno é escolher muito bem onde e com quem, avaliar as condições locais de higiene e, depois de sua aplicação, tomar cuidados de limpeza e desinfecção diárias.
Ao contrário da tatuagem, a literatura não menciona nenhuma utilidade científica ou médica para os piercings.
Não existe uma regulamentação da profissão dos aplicadores de pierging e tampouco um treinamento sistemático estabelecido. Está aí um tema aberto para discussão e regulamentação. 
Dra.Luciana de Almeida Nobile
E-mail: luciananobile@brevesdesaude.com.br |