Transtorno de pânico
Prof. dr. Mario R. Louzã

O ataque de pânico

Era uma tarde tranqüila de sábado, Ana [nome fictício] e o marido passeavam pelo shopping enquanto aguardavam o horário da sessão de cinema. Estavam tranqüilos e se distraiam com o movimento das pessoas. Pouco antes de entrarem no cinema Ana começou a sentir um certo desconforto, um medo que rapidamente foi tomando conta de si. Seu coração batia rapidamente, sentia tonturas, começou a suar, a respiração ficou "presa" e ofegante. Seu corpo tremia, tinha a sensação de que precisava sair dali correndo, estava angustiada, como se fosse morrer. Pegaram o carro e foram rapidamente até um pronto-socorro nas redondezas; lá chegando já se sentia um pouco melhor. Foi examinada, fizeram um eletrocardiograma que nada de anormal apresentou. Sua pressão estava boa, apenas o coração estava ainda um pouco acelerado. Foi medicada com um calmante e teve alta do pronto-socorro.

O relato acima é típico de um ataque de pânico. Ele se caracteriza por dois aspectos, um psíquico e outro físico. Do ponto de vista psíquico há a súbita sensação de medo, terror, angústia, ansiedade, sensação de morte iminente, sensação de perda de controle de si, sensação de estranheza em relação ao ambiente. Ao mesmo tempo várias manifestações físicas acontecem: palpitações, falta de ar, sudorese, vertigens, dor no peito, náuseas e tonturas. Em geral o início do ataque é abrupto, pode ou não ter fatores desencadeantes (por exemplo, estresse, uso de drogas), sua duração em geral varia de minutos a horas, desaparecendo gradualmente.

O ataque de pânico costuma ter um impacto avassalador na pessoa. Embora as pessoas muito freqüentemente utilizem a expressão "pânico" para falar de seu estado de espírito ou para dizer que estão ansiosas, do ponto de vista técnico somente os sintomas acima descritos caracterizam um ataque de pânico.

O transtorno do pânico

Poucos dias depois, levando o filho para a escola, Ana viu-se novamente com aquele medo terrível uma sensação de desmaio. Precisou correr rapidamente de volta para casa. Novas crises semelhantes aconteceram nos dias subseqüentes; Ana começou a ficar insegura para sair de casa sozinha, evitava dirigir seu carro, o que começou a limitar suas atividades do dia-a-dia.

Como no caso de Ana, é comum que os ataques se repitam com alguma freqüência (desde várias vezes ao dia, até ataques esporádicos) passando a constituir o transtorno de pânico.

Os ataques podem ocorrer a qualquer hora ou local, sem aviso prévio. Isto pode deixar a pessoa insegura e ela pode desenvolver um grande medo de ter novos ataques de pânico, o que é denominado agorafobia. A pessoa passa a evitar sair de casa por se sentir insegura ou a evitar os locais ou situações nos quais apresentou os ataques de pânico (p. ex., locais fechados como carros, metrô, elevadores). Com isso sua vida cotidiana começa a sofrer prejuízos significativos.

O transtorno de pânico começa usualmente na adolescência ou inicio da idade adulta; embora seja mais raro, pode ocorrer também em crianças. Atinge cerca de 1% a 2% da população e é duas vezes mais freqüente nas mulheres que nos homens. É um transtorno de longa duração, que tende a ser recorrente, mesmo com tratamento. A pessoa pode passar longos períodos sem o transtorno, mas este pode voltar a se manifestar novamente.

Para o diagnóstico do transtorno de pânico, o psiquiatra se baseia fundamentalmente nas queixas do paciente. Exames laboratoriais e eletrocardiograma podem ser solicitados e usualmente estão normais. Em algumas pessoas é detectada uma pequena alteração em uma válvula do coração ("prolapso de valva mitral"), mas a relação entre tal alteração e o transtorno de pânico ainda não é bem compreendida.

As complicações do transtorno do pânico

As principais complicações do transtorno de pânico, além da agorafobia, são a depressão e o abuso de bebidas alcoólicas. Depressão e transtorno de pânico ocorrem freqüentemente juntos, sendo que uma doença prejudica a outra, criando um círculo vicioso de grande sofrimento para a pessoa. Com alguma freqüência as pessoas recorrem ao álcool para "alívio" dos sintomas do pânico. Esta substância, além de não melhorar a doença, ainda pode agravar a condição física da pessoa, levando-a a ter todos os prejuízos do uso crônico de álcool.

O transtorno de pânico ocorre freqüentemente em famílias, o que leva a crer que haja um componente genético-hereditário na doença. Os mecanismos biológicos que levam ao ataque de pânico ainda não são bem compreendidos. Tais mecanismos biológicos estariam relacionados aos mecanismos cerebrais normais de reação a situações de medo. Os portadores de transtorno de pânico teriam uma propensão maior a desencadear as reações biológicas ao medo, mesmo numa situação ou local em que não existe motivo algum para o medo. Os ataques seriam disparados espontaneamente, mesmo sem qualquer ameaça. Tal vulnerabilidade os deixaria também mais propensos a ter ataques de pânico quando em situações de estresse emocional.

O tratamento do transtorno de pânico requer duas abordagens complementares: medicação e psicoterapia.

O tratamento medicamentoso

Os medicamentos antidepressivos são bastante eficazes no controle dos ataques de pânico. No entanto, eles demoram algumas semanas para fazer efeito, durante os quais pode ser necessário o uso de medicamentos ansiolíticos (que também ajudam a controlar os ataques de pânico). Eventualmente os medicamentos antidepressivos pioram os ataques de pânico nos primeiros dias de seu uso, embora posteriormente eles bloqueiem tais ataques. Os antidepressivos devem ser utilizados por longo período de tempo, mesmo depois que os ataques de pânico desapareceram, para evitar recaídas. Depois de vários meses sem ataques, é possível tentar reduzir a dose e eventualmente retirar a medicação.

O tratamento psicoterápico

A psicoterapia é importante especialmente para ajudar a pessoa a evitar ataques de pânico e a vencer o medo de ter novos ataques. Muitas pessoas que tiveram ataques de pânico passam a "policiar" seus batimentos cardíacos de tal modo que estão sempre achando que vão ter um ataque de pânico. Evitar tais "pensamentos negativos" (que muitas vezes acabam mesmo desencadeando o ataque de pânico) ajuda a evitar os ataques.

O controle da respiração também é importante, já que é sabido que respirar freqüente e aceleradamente ("hiperventilação") pode ser fator desencadeante. O esforço de desviar o pensamento das sensações físicas corriqueiras e inócuas também é benéfico, por propiciar uma avaliação realista das sensações do próprio corpo. Para superar a agorafobia, é preciso ir gradualmente enfrentando as situações ou locais que causam medo de novos ataques de pânico. Ao enfrentar a situação, a pessoa vai aos poucos se dando conta de que pode estar novamente levando sua vida cotidiana sem a preocupação constante das recidivas. Essa exposição progressiva e controlada às situações cotidianas auxilia na recuperação da pessoa.

Aspectos ligados à personalidade da pessoa com transtorno de pânico, tais como mudanças na maneira como a pessoa lida com situações de estresse, de medo, de dependência, de abandono e perda, requerem uma abordagem psicoterápica mais intensiva e de longo prazo.

Prof. dr. Mario R. Louzã
Médico psiquiatra e psicanalista, doutor em Medicina pela Universidade de Würzburg, Alemanha.
Médico Assistente do Instituto de Psiquiatria do HC-FMUSP.
Site: www.saudemental.com

E-mail: luciananobile@brevesdesaude.com.br
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