| Breves Literatura impura
Textos selecionados por Renata Pallottini Nestes dias em que, na Inglaterra, se discute a legalidade e, mesmo, o caráter ético da caça à raposa, lembrei-me de um texto que, a seu tempo, me impressionou muito e me parece cabível, nos termos dessa discussão. Trata-se de um trecho de The well of Loneliness - O poço da solidão - romance da autora inglesa Radcliffe Hall (1886-1943), que narra a vida de Stephen, uma jovem mulher de origem nobre que se debate em sua vida de conflitos sexuais. Quando de seu lançamento, em 1928, o livro provocou escândalo no ainda vitoriano Reino Unido. Vamos a ele: "Deram com a raposa logo no primeiro esconderijo e prosseguiram no seu encalço através das campinas amplas e nuas
............................................................ Eram muitos e ela era uma criatura solitária contra a qual, investiam bandos. .................................. O mundo inteiro a caçava com ódio, com tenacidade, com um desejo insofrido de destruição.......................... Nisto, Stephen viu qualquer coisa à sua frente, bem acolá, se movendo............ Uma estria de pele avermelhada, rastejante, enlameada, com a língua de fora, com os pulmões arrebentando de agonia, com uns desesperados olhos fulgurando de terror e olhando ora para um lado, ora para outro, em busca de um caminho, de uma salvação, como à procura de uma coisa súbita; e um pensamento veio a Stephen : Está procurando Deus, que a criou. " Renata Pallottini
Poeta e dramaturga, autora de "Um calafrio diário", poesia, ed. Perspectiva; "Dramaturgia de Televisão", ensaio, Ed.Moderna; "Ofícios e Amargura" , romance, Ed. Scipione; "As três Rainhas Magas", infantil, ed. Brasiliense, entre outros títulos.  Indicação de livro
"Flor do deserto" - Waris Dirie
e Cathleen Miller (Editora Hedra) Gosto de um passeio pelas livrarias. Abro todos os livros que me interessem: seja pelo autor, seja pelo tema e às vezes até pela capa. Edita-se mais ou edita-se menos? Não sei. Há hoje uma profusão de livros policiais. Escritos, muitos deles, por mulheres. Livros de auto-ajuda também há muitos...embora eu seja muito resistente a que me ajudem. Poesias, romances, tanta coisa nova. Reedições bem feitas. Mas, desta vez, num cantinho de uma estante chamada de Sociologia, havia dois livros. Um eu já conhecia e sempre me fascina quando releio: O país das sombras longas . Falarei dele numa outra vez. E um outro que eu abri por acaso e acabei lendo até a metade, sentada no chão da livraria. É um livro fascinante, escrito por uma mulher igualmente encantadora. Waris Dirie, modelo, poderia estar ampliando seu pé de meia. No entanto, hoje ela é representante especial da ONU, na luta pela erradicação da mutilação genital feminina. Mas não se trata apenas da mutilação genital. É muito mais que isso, se pensarmos quantas brasileiras estão sendo mutiladas, cada uma de uma maneira diferente: mutiladas intelectualmente, mutiladas quanto a seu caráter, mutiladas economicamente, e de tantas outras formas. Ler FLOR DO DESERTO , pode ser a chave mágica (o livro é muito bem escrito) que abra pra nós todas as portas do entendimento de como vivemos e de como aceitamos que nos coloquem sempre como subalternas, a ponto de não sabermos direito o que fazer para conquistar a liberdade e o que fazer com ela depois de conquistada. FLOR DO DESERTO, escrito por Waris Dirie (nômade nos desertos da Somália), é baseado em fatos reais. E pode ser a nossa chave para começarmos e entender o mundo em relação a todas as mulheres. Ana Luiza Fonseca
 Indicação de livro
"Eliane Lage" - autobiografia (Editora Brasiliense)
Recentemente tive o privilégio de ler o original da autobiografia de Eliane Lage, estrela de "Caiçara", "Sinhá Moça", entre outros, nos tempos áureos da Vera Cruz de São Bernardo, construída em terrenos de Ciccilo Matarazzo. O texto de Eliane me emocionou, não sei se pela maneira de contar a sua história ou pela enorme quantidade de eventos tão peculiares. A família tinha a possessão de ilhas na Guanabara, onde construíam navios, e aí Eliane passou sua infância, em contato com a natureza, até o momento em que o governo confiscou as ilhas, na segunda grande guerra, sem nunca ter indenizado a família. Levou uma vida agitada, entre internatos de colégios, morando com o pai no Brasil e, na adolescência, com a mãe, que se casara com um diplomata, na Inglaterra e na Grécia. Afilhada de Yolanda Penteado, freqüentou salões da alta-roda. Teve muitas regalias, mas também muita solidão. Conta em detalhes sua trajetória de vida, sem lamentações, seu casamento com Tom Payne, os festivais de Mar Del Plata, os filhos, a guinada em sua vida, já desquitada, mudando-se para Pirenópolis, perto do Distrito Federal, onde tentou inúmeras criações e plantios. Ler sobre sua vida gerou em mim uma grande expectativa por conhecer pessoalmente essa criatura, quem sabe, quando do lançamento de seu livro, em São Paulo, Rio de Janeiro ou, mais divertido ainda, em Pirenópolis, lá no interior de Goiás? Luciana Nobile |