| Síndrome metabólica: associação de obesidade, diabete, hipertensão e colesterol, fatores da atualidade que induzem à morte súbita
Profa. dra. Maria Lúcia Bueno Garcia, minha amiga desde os bancos da faculdade. O mundo atual está vivenciando grande aumento da incidência de obesidade, de hipertensão arterial, do aumento do colesterol no sangue e do diabete. Nos Estados Unidos, uma em cada cinco pessoas apresentam obesidade associada a pelo menos uma das doenças citadas acima. A presença desproporcional dessas patologias coincide com o aumento da casuística de morte súbita mundial por causas cardíacas e vasculares, como infarto do miocárdio (do coração) e derrame cerebral, sugerindo associação dessas doenças com as principais causas de morte da atualidade. A presença de aumento de peso com índice de massa corpórea acima de 35 (IMC=peso/altura ao quadrado) aumenta 7 a 10 vezes o risco de morte por doenças cardiovasculares. Lembramos que as patologias cardíacas e vasculares podem ser silentes, apresentando poucos sintomas; evoluem com lesão progressiva dos vasos de todo corpo, ocasionando em longo prazo, se não tratadas, a morte súbita. O humano primitivo Na verdade, acreditamos que a associação desses fatores que agora encurtam o tempo de vida e predispõem à morte súbita, no passado tenham sido fatores de proteção e de preservação da raça humana. Na época da idade da pedra, o homem era obrigado a caçar e procurar comida, então escassa e de difícil obtenção, para a sua sobrevivência. O clima também era adverso à subsistência, ocorrendo grandes variações de temperatura, frio e calor, com surtos de tempestades e ventos fortes. O homem, além de predador, também era caçado, exigindo agilidade e energia para poder se esconder, subir obstáculos e ter força para lutar. A causa morte mais importante era a traumática e a infecciosa. Portanto, o homem que geneticamente apresentasse maior predisposição de reter gordura, teria maior proteção contra as intempéries climáticas e maior reserva de energia para o fenômeno de stress agudo (fuga, lutas, traumas, etc), maior reserva energética alimentar de estoque (estoques de gordura) levando a maiores chances de sobrevivência perante tantas adversidades.  Pouca comida, grande atividade física e alteração brusca do clima seriam fatores que impediriam o acúmulo excessivo dessas gorduras, tornando esse fator como um importante item para a sobrevivência. O humano atual
Acreditamos assim, que nós seres humanos atuais somos provenientes de linhagens humanas com predisposição a reter gordura. Aquilo que garantiu maior chance de sobrevivência em situações adversas no passado, chegou aos nossos dias aumentando o risco de doenças cardiovasculares e assim, contribuindo para a morte precoce. Resumindo, o fator que salvou a raça humana no passado, agora encurta a nossa vida, nos matando mais precoce e subitamente. Síndrome metabólica: sobre o que estamos falando? Qual seria a relação dessas doenças, obesidade, diabetes melitus, hipertensão e aumento do colesterol e as alterações do coração e vasos? Em meados dos anos 50-60, descobriu-se associação do aumento dessas patologias com as alterações vasculares, sendo denominada de síndrome X (associação de obesidade, hipertensão arterial, diabetes mélitus e hipercolesterolemia). Posteriormente, foi denominada de síndrome da resistência à insulina ou Síndrome Metabólica, pois age em todo metabolismo. A insulina e o diabete Diabete é a doença caracterizada pelo aumento dos níveis sangüíneos de açúcar (glicose). A entrada de açúcar na célula se faz através da ação da insulina, permitindo que esse açúcar seja fonte de energia. Ela é produzida pelo pâncreas, e além de facilitar a entrada de açúcares nas células, ela também ativa a queima de gordura e de açúcar pelas células da musculatura. A falta de insulina está associada à fraqueza e ao emagrecimento secundários à falta de açúcar na célula, acompanhados de excesso de sede e diurese (produção de urina), porque o açúcar acumulado no sangue é eliminado na urina juntamente com água, induzindo um estado de sede ao paciente. Esse é o estado patológico que clinicamente definimos como diabetes. No entanto, no paciente adulto, o diabete está associado a excesso de gordura. Constatou-se que esses pacientes, quando ganhavam peso, apresentavam aumento de açúcar no sangue, porém, com aumento também dos níveis circulantes de insulina no sangue. Concluiu-se que o problema não era a falta de insulina produzida no pâncreas, mas uma diminuição de resposta do receptor das outras células a essa insulina, tornando necessárias maiores quantidades do hormônio para atingir o mesmo efeito. Assim, foram definidos 2 tipos de diabetes mélitus (com aumento de açúcar no sangue):
tipo 1: antes chamado de "diabetes infantil" - sem insulina (mais comum em crianças)
tipo 2: antigamente chamado do tipo adulto - com excesso de insulina, porém, menos resposta de seu receptor nas células periféricas. Síndrome metabólica: definição A síndrome metabólica ou de resistência à insulina, atualmente é definida a partir de dados objetivos demonstrados na tabela1.
| Tabela 1: Síndrome Metabólica |
circunferência abdominal: Homens >102cm; Mulheres >88cm (obesidade)
- Baixo HDL-c (colesterol bom, de alta densidade, Homens <40mg/dl; Mulheres <50mg/dl)
triglicérides (>150mg/dl) (aumento de gorduras no sangue)
PA (PA>130x85mmHg ou em tratamento da HA) (hipertensão)
glicemia (açúcar no sangue em jejum>100mg/dl) (diabete)
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Síndrome metabólica: mecanismo da associação entre diabetes, obesidade, hipertensão e aumento de colesterol (um pouco de teoria) Acreditamos que a doença metabólica inicie com o aumento de peso e o depósito de gordura, induzindo a obesidade. A obesidade por sua vez, é secundária a fatores genéticos adquiridos e a fatores ambientais: aumento da ingestão de alimentos calóricos associados ao sedentarismo da vida moderna, promovendo um balanço positivo de gordura no organismo. Essa gordura em excesso, principalmente na localização das cinturas, permanece estocada em células denominadas de adipócitos, que passam a produzir substâncias chamadas adipocinas. As adipocinas agem em outras células do organismo, predispondo ao aparecimento das seguintes doenças conforme tabela abaixo:
| Doença |
Ação da Adipocina |
| Diabetes melitus |
aumenta a resistência da célula na resposta à insulina, impedindo a entrada do açúcar na célula, promovendo o diabetes.
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Hipertensão arterial
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aumenta a reatividade e o espessamento da parede dos vasos periféricos, facilitando sua contração e diminuição do seu calibre, aumentando a pressão arterial
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Hipercolesterolemia
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menor queima de gordura pela musculatura como fonte de energia, aumentando seus estoques em pele e em órgãos e no sangue sob forma de triglicérides e colesterol, que formam a placa de aterosclerose
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Assim, a apresentação do paciente com síndrome metabólica será de paciente com diabetes mélitus tipo 2, geralmente adulto e gordinho, apresentando comumente associação de aumento de gorduras (lípides) no sangue, hipertensão arterial e alteração dos vasos e coração com depósito de colesterol, que faz a aterosclerose. A aterosclerose provoca estreitamento dos vasos, que quando totalmente ocluídos, determinam falta de oxigenação dos tecidos irrigados por eles e morte deste tecido. A morte (infarto) destes tecidos geralmente ocorre subitamente e, dependente do local acometido, é conhecida como derrame cerebral (no cérebro), infarto do miocárdio (no coração) e gangrena de membros (nas pernas e braços). Concluindo, quanto mais se engorda, maior a propensão para aumento de resistência à insulina, menor utilização das células em queimar gordura e açúcar, maior depósito de gordura nos vasos e portanto, aterosclerose, maior tendência de trombose, diabetes e hipertensão, induzindo a progressiva obliteração dos vasos e degradação da função do coração, podendo levar a morte súbita (vide esquema abaixo). Outras doenças relacionadas à obesidade Lembramos que a obesidade também está relacionada a outras morbidades (doenças), como a apnéia do sono, osteoartrite por sobrecarga das articulações, doença de inflitração gordurosa do fígado (esteatose hepática ou esteatohepatite, que pode evoluir para cirrose) e aparecimento de pedras na vesícula biliar (colelitíase). As células adiposas também produzem hormônios femininos modificados e masculinos, que dificultam a concepção e a gravidez. Aumentam a produção de substâncias semelhantes à cortisona, que por sua vez aumentam o depósito de gordura no abdômen e na face, com facilitação de aparecimento de espinhas e acnes. Dificultam a atuação dos hormônios tiroidianos, lentificando todo o metabolismo do corpo. O sedentarismo, por sua vez, induz a osteoporose, atrofia da musculatura, piora da capacitação pulmonar e cardíaca e predispõem a acúmulo de gordura.
Portanto, a obesidade e o sedentarismo são doenças de maior importância da atualidade, e devem ser combatidas desde o início, no intuito de facilitar a resposta terapêutica e a lesão irreversível dos vasos. Porém, para tudo tem esperança, e existe uma boa novidade: os trabalhos demonstram que mesmo a perda de apenas 10% de peso já diminui muito o risco de morte súbita.
Esta é mais uma razão para intervirmos drasticamente nessas doenças.
Como podemos intervir na obesidade, diabetes, hipertensão e aumento de gorduras?
Não precisamos para isso, voltar a morar em árvores, ou competir com outros animais predadores por comida e ficar exposto às intempéries do tempo. Porém, devemos combater o sedentarismo e o excesso de ingestão de alimentos calóricos, que estão a nosso dispor em supermercados e restaurantes.
O tipo de vida que levamos nos induz a trabalhar cada vez mais sentados, ingerir cada vez mais produtos industrializados, com poucas fibras e, culturalmente, a socializar com as pessoas comendo e bebendo acomodados em ambiente agradável. Assim, quando pensamos em um bom programa com amigos, geralmente sugerimos: Vamos nos reunir e comer pizza? E nunca dizemos: Vamos sair para comer brócolis?
Não estou sugerindo que devamos ser masoquistas e só fazer o que não nos dá prazer. Porém, devemos redescobrir o prazer de comer substâncias saudáveis, exercitar o corpo para promover aumento da queima de energia de açúcar e gordura, melhorando a nossa musculatura, capacidade pulmonar e cardíaca e o fluxo por nossas artérias e veias, e concomitantemente, liberando endorfinas, que nos trazem sensação de bem-estar. Além disso, passamos a ter um corpo melhor, o que melhora a nossa auto-estima e receptividade no convívio social. Com isso, almejamos melhora da qualidade e expectativa de vida.
Sugestões
Algumas regras devem ser seguidas para que a intervenção consiga maiores sucessos:
1- As mudanças de hábitos de vida são difíceis porque combatem hábitos enraizados no nosso cotidiano. Portanto, devem ser feitas com persistência e adaptadas para áreas de prazer para obter boa adesão, isto é, o cardápio e a atividade física escolhidos devem ser da preferência de cada pessoa, dentro de seu cotidiano e de sua realidade psíquica e social.
2- Antes de iniciar atividade física e a dieta, principalmente a partir dos 35 anos, um médico deve ser consultado para avaliar a capacidade nutricional, cardíaca, pulmonar e muscular individual e orientar a dieta. Se necessário, com o auxílio de uma nutricionista.
3- Ingestão diária de frutas frescas é fundamental. Elas contêm vitaminas, que são antioxidantes e portanto retardam o envelhecimento, dificultam o aparecimento de rugas, combatem a inflamação, diminuem o depósito de gordura nos vasos, além de conter fibras que facilitam a evacuação e diminuem a incidência de câncer de intestino e de mama.
4- Atividade física pelo menos 3 vezes por semana, com duração de 40 minutos, pois a partir desse tempo o músculo queima, além do açúcar, também a gordura como fonte de energia. As atividades físicas devem ser adequadas, se possível, dentro de sua rotina diária. Sugere-se: dança, ioga, caminhada, natação, hidroginástica, jogos de quadra, alongamento, tai-shi, judô, caratê, entre inúmeras outras. Mas que sejam constantes e de acordo com sua capacidade.
5- A atividade física deve ser progressiva e contínua, adequando-se à capacidade física individual. Ao mesmo tempo, que seja prazerosa, para obter maior adesão e liberar maior quantidade de endorfinas.
6- Os alimentos industrializados e com muita gordura devem se diminuídos na alimentação, e parcialmente substituídos por aqueles ricos em fibras, como grãos e verduras. Prefira comidas cruas ou cozidas ao invés de frituras.
7- Quando ingerir maior quantidade de comida rica em carboidratos ou gordura, aumente a atividade física nos dias subseqüentes, para permitir que o excesso seja compensado com aumento do gasto de energia.
8- Durma pelo menos 7 a 8hs diárias. O sono permite relaxamento, menos estresse no cotidiano e menor chance de processos oxidativos e inflamatórios, e melhora as defesas imunológicas do organismo.
9- Pare para comer, sentando-se à mesa com pessoas que você aprecie. Faça pratos com apresentação visual bonita e colorida, com variados tipos de alimentos, mas sem exagero na quantidade. Coma pelo menos 4 vezes por dia, e se necessário, diminua a quantidade de alimento por refeição mas nunca espace o intervalo entre refeições. O jejum prolongado aumenta a absorção dos alimentos ingeridos pelo intestino. Coma com prazer, mas coma o que é conveniente, na quantidade adequada.
10- Lembre-se: Comer bem não é passar fome!!!! Coma para viver bem e não viva para comer!!!!
11- Nos pacientes que apresentarem grau avançado de obesidade (IMC>35), pode ser necessário introduzir medicações que facilitem a adesão às mudanças de hábitos de vida, mas sempre prescritas e acompanhadas por médicos(as).
12- As condutas acima sugeridas devem ser empregadas desde a infância, pois sabemos que crianças com sobrepeso terão maior tendência à obesidade e às suas complicações, como a síndrome metabólica (ou resistência à insulina), com hipertensão, diabetes e hiperlipidemia (aumento das gorduras no sangue) e conseqüente lesão progressiva dos vasos sangüíneos.
13- O paciente que apresentar a síndrome metabólica (ou síndrome de resistência à insulina) com todos os comemorativos adversos, tais como hipertensão, diabetes, obesidade e hiperlipemia, deve tomar medicações quando necessárias, diminuir de peso com atividade física e, em termos de dieta, controlar:
a- diabetes: evitar açúcar e massas
b- hipertensão: evitar sal
c- hiperlipemia: evitar gorduras
d- obesidade: evitar comidas calóricas
Então, o que o paciente pode comer?!
Fica a impressão que o paciente vai morrer de fome. Isso não é verdade. Mesmo nesses pacientes, e principalmente neles, a dieta não deve ser radical e sempre deve estar associada a exercícios, para impedir a desnutrição e permitir a elaboração de massa muscular, associados ao aumento de sensibilização dos receptores de insulina, com aumento de queima de gorduras e açúcar.
Percebemos assim, que melhorar a qualidade e expectativa de vida está associada a comer bem, dormir bem e ter atividade física constante e que isso é possível ser convertido em boa vida com prazer. O sedentarismo e a obesidade nos levam a isolamento, depressão, e menor capacidade de deleitar as coisas boas da vida. Nossa proposta é que vivamos mais e melhor!
Boa sorte e um grande abraço!

Maiores informações:
Para maiores dados, procure seu médico e pesquise "on-line" os sites:
- Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia www.sbem.org.br
- Organização Projeto de Atendimento ao Obeso - HCFMUSP (PRATO, do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP) www.hcnet.usp.br/ipq/prato

Profa. dra. Maria Lúcia Bueno Garcia
Médica Assistente- Doutora do Serviço de Clínica Geral do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (HC-FMUSP)
Professora Colaboradora Doutora do Departamento de Clínica Médica da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP)
Médica-Preceptora da Unidade de Emergência do Hospital Heliópolis, em São Paulo - SP. |