Masturbação feminina
Dra. Luciana Nobile

Tema delicado devido aos preconceitos e tabus sexuais incutidos em nossa formação sexual.

Tantas vezes tenho me perguntado porque complicam o que deveria ser lúdico e prazeroso, que é o exercício pleno e saudável da sexualidade. Na masturbação, que é o sexo solitário, menos razões teríamos para recriminações, já que não envolve terceiros e não existe risco de gravidez ou transmissão de doenças. Para isso, só recorrendo à história da repressão sexual, que mais afetou a população do sexo feminino, assim como outras decorrências do patriarcado e do machismo seculares.

Dodson escreve sobre a postura de doutrinas religiosas fundamentalistas e de políticos conservadores radicais de direita, nos Estados Unidos, juntando forças para controlar a vida pública e privada de cidadãos americanos: "A melhor forma de manter a população dócil e fácil de ser manipulada é proibir a masturbação, insistir no casamento e na monogamia, esconder informações sexuais e de controle da natalidade, criminalizar o aborto e a prostituição, condenar a homossexualidade, censurar a diversão com sexo explícito, e negar a existência de diversidade sexual." (Referência no final do texto)

É inegável a influência cultural e religiosa que recebemos desses conceitos reacionários.

Afinal, o que é a masturbação? Como ela é praticada, qual a preferência das mulheres?

Definição

Definições antigas, tais como "vício solitário, auto-estupro, auto-emasculação, auto-abuso, desperdício", caracterizam alguns conceitos que se tinha sobre a sexualidade.

A masturbação é a auto-manipulação genital, objetivando o orgasmo. Não é vício, não é estupro, não é abuso e não é desperdício. Não é tampouco "pecado", dentro de nossas crenças de vida do que seja certo ou errado.

Hoje, conceitua-se a masturbação como a auto-manipulação ou auto-estímulo dos órgãos sexuais. Também chamada de onanismo, principalmente na masturbação manual masculina.

O mais importante dentro da conceituação de masturbação, é que ela em si é sexo e não parte ou complemento na prática sexual compartilhada ou exercício infantil da sexualidade, como anteriormente citados.

Equívoco semelhante em relação à masturbação foi a defendida por alguns, inclusive Freud, num determinado momento, de que o orgasmo extra-vaginal era sexo infantil. Afirmavam, equivocadamente e muitas vezes cheios de preconceitos, ou quem sabe, invejosos do orgasmo que não dependesse da presença masculina e tampouco da penetração, que sexo maduro era aquele obtido com a penetração vaginal pelo pênis.

Quando faz parte do relacionamento sexual a dois, existindo como estímulo ao orgasmo por duas pessoas, como complemento desse relacionamento e parte dos jogos sexuais, não é masturbação .

Por definição, a masturbação é a prática solitária, sem a presença do(a) outro(a) ou de outros. O estímulo do clitóris no jogo sexual a dois é um estímulo da prática sexual compartilhada. Portanto, estou contradizendo o conceito popular de que seja masturbação aquela manipulação clitoridiana durante o relacionamento sexual a dois.

Faz parte da saúde genital da mulher. Ajuda a exercitar músculos, produzir secreções, manter viva a genitália feminina.

Temos que considerar que a maioria das mulheres tem períodos de suas vidas, às vezes extensos, com ausência total de parceiro(a)(s) sexual(sexuais).

O orgasmo atingido através da masturbação não é diferente daquele da relação sexual compartilhada, seja em intensidade, duração ou qualidade. Se a mulher se masturba acreditando que esteja fazendo uma contravenção, sentindo-se culpada, provavelmente não sentirá o orgasmo em toda a intensidade que lhe é possível. Se ao se masturbar pensar que está cometendo um delito, fazendo sexo proibido ou mesmo sexo de segunda classe, pouca chance terá de aproveitar esse orgasmo em toda a sua plenitude.

A mulher aprendeu desde sempre que era "pecado" tocar o próprio corpo. Como de repente pode sair dessa situação de culpa para a do prazer, sentindo livremente o orgasmo? Ora, já superamos tantas outras dificuldades para garantir algum espaço num mundo antes exclusivo do sexo oposto, porque não mais esse desafio?

Como é praticada a masturbação?

Um bom começo seria a auto-exploração dos genitais, com o auxílio de um espelho e do tato, para conhecer seus próprios genitais. Muitas mulheres nunca se olharam e não têm noção de sua própria configuração anatômica. Existem muitas variações, de modo que provavelmente não existam duas pessoas no mundo com os genitais iguais. Isso pode ser foco de conflito, com interpretações equivocadas de desvio da normalidade na anatomia.

A masturbação pode ser realizada com os próprios dedos, com a mão ou utilizando um objeto erótico outro, desses encontrados à venda nos sex-shops. Existe uma infinidade de aparelhinhos, vibradores, pênis artificial com ou sem vibrador, enfim, cada mulher se adapta a uma diferente maneira de se auto-estimular.

Vai muito da imaginação e da fantasia, quando da escolha de artefatos, que têm configuração múltipla. Desde sempre me pergunto porque esses objetos são vendidos exclusivamente em sex-shops... ainda constrange a muitas mulheres entrar nesse tipo de comércio, mas espero que com o tempo, elas descubram que isso lhes é de direito, e que descobrir coisas novas sempre pode ser gratificante.

Algumas mulheres imaginam-se transando com um objeto de desejo, que pode ser uma pessoa ou situação, como por exemplo, como se estivesse num sexo grupal.

A intensidade da pressão desejada, agradável e que funcione como um bom estímulo, depende de cada mulher e da fase sexual em que se encontra. O mesmo vale para o ritmo empreendido nos movimentos, geralmente mais rápido no final da fase sexual, perto do orgasmo.

Algumas preferem a masturbação no banho, com o chuveirinho ou com os dedos, outras preferem na cama ou no sofá, deitadas de barriga para baixo ou de costas, com pernas abertas ou fechadas, esticadas ou dobradas, cada uma se posicionando de acordo com a sua preferência pessoal.

Algumas mulheres gostam da penetração vaginal com dedo ou um objeto outro, como parte do auto-estímulo. Outras variam a maneira de se auto-estimular e o lugar, de acordo com as circunstâncias ou com a individualidade do momento.

Muitas vezes é difícil encontrar na própria casa um local em que tenha privacidade e tranqüilidade para se masturbar. Isso constrange e impede muitas dessa prática sexual, enquanto que outras se excitam com a possibilidade se serem pegas em "flagrante".

Como é o orgasmo da masturbação?

O orgasmo com o auto-estímulo é de intensidade variável, assim como qualquer tipo de orgasmo que possamos sentir. Depende de quanto de excitabilidade o momento nos proporciona. Igualmente, às vezes pode ser múltiplo.

O orgasmo múltiplo não é privilégio de todas as mulheres e tampouco costuma ocorrer em todos os eventos sexuais de uma mesma mulher, mas quem os têm em "cascata", em geral diz que é muito bom. Esse privilégio é quase que exclusivo do universo feminino.

A lubrificação, como em qualquer prática sexual, também não é sempre a mesma. Não tenho a expectativa de que os fluidos genitais ocorram tão rapidamente ou em igual intensidade nas mulheres "maduras", quando comparadas às jovenzinhas de 15-20 anos. Após a menopausa, muito freqüentemente é necessário o uso regular de hormônio vaginal (estrogênio "fraco") para manter a elasticidade e umidade dos genitais. Pode-se também recorrer aos lubrificantes aquosos, para facilitar a penetração.

Manipulação clitoridiana no relacionamento compartilhado

Acredito que a questão da masturbação tenha sido razoavelmente abordada. Entretanto, apesar de ser uma forma de prática sexual assim como o sexo compartilhado, não tenho qualquer dúvida de que esse último, quando acompanhado de alguém com quem tenhamos um envolvimento agradável, afinidade e tesão, é a modalidade de preferência da maioria.

O prazer do exercício sexual com quem temos um envolvimento amoroso, geralmente é insuperável. Algumas pessoas encontram a sua cara-metade da cama muitas vezes durante a vida, outras, nunca, e tem aquelas que são felizes a vida toda com uma companhia única.

Alguns "detalhes" entretanto precisam ser discutidos para melhorar a qualidade da vida sexual da mulher, permitir o máximo do prazer em cada evento, principalmente quando da situação mais comum, que é a do relacionamento heterossexual.

Parece incomodar aos homens que a mulher muitas vezes tenha orgasmo na manipulação clitoridiana com maior facilidade do que na penetração vaginal. Alguns tampouco toleram a possibilidade de estimular o clitóris da companheira ou que ela se manipule durante o relacionamento sexual.

Muitas vezes a estimulação clitoridiana é exercida durante o relacionamento sexual compartilhado, quando a penetração não é suficiente para levar a mulher ao orgasmo. Para Hite, uma das maiores estudiosas da sexualidade humana, orgasmo "vaginal" é ocorrência excepcional, principalmente o concomitante com o parceiro.

Em geral os homens têm dificuldade em entender que o comum seja que as mulheres não consigam o orgasmo apenas com a penetração pênis-vagina. Sentem-se muito viris quando conseguem uma ereção e, uma vez atingida a ereção adequada para a penetração, acreditam que ela não possa ser desperdiçada ou atrapalhada, exigindo a penetração. E isso é aceito tacitamente pela mulher, que não interrompe uma ereção.

Só que a mulher pode não se encontrar na mesma fase do desejo sexual e tampouco estar pronta para receber o pênis do parceiro, sem lubrificação adequada dos genitais. Ou então, ela pode sempre precisar do estímulo clitoridiano para excitar-se ou atingir o orgasmo.

A falta do orgasmo da mulher muitas vezes é sentida como rejeição pelo homem ou insegurança quanto ao seu desempenho sexual. Outras vezes, não se preocupa ou não atenta para o prazer da parceira.

Insisto nessa questão da abordagem da sexualidade compartilhada da mulher, porque existe um conceito de que mulheres que não têm orgasmo na penetração pênis-vagina sejam frígidas, mesmo quando competentes para atingir o orgasmo na auto-estimulação clitoridiana ou pelas carícias do(a) parceiro(a) em seu clítoris. Chamá-las de frígidas é fugir da discussão sobre relacionamento sexual harmônico ou satisfatório para as duas partes envolvidas no relacionamento sexual.

Não existe uma maneira "correta" de se ter orgasmo. Tampouco existe modelo único de necessidade ou comportamento sexual. Depende da vontade de cada mulher, em cada momento de sua vida. Pode necessitar de estímulo do clítoris, da penetração vaginal, ou de ambos, como padrão ótimo para atingir o orgasmo.

Leitura recomendada:

- Dodson, B., "Sex for one - the joy of selfloving", Three Rivers Press, New York , copyright 1996.
- Hite, S., "O orgulho de ser mulher", Ed.Sextante, 2004.


Dra. Luciana Nobile
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Fotos ilustrando o texto são de autoria de Maria Teresa de Lima.

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