Patagônia
Por Dra. Luciana Nobile

Quando do planejamento da viagem realizada em dezembro de 2004 à Patagônia, fui forçada a estudar a "anatomia" da região e os locais que gostaria de conhecer, por desconhecimento da geografia do cone sul. De repente percebi que algumas regiões onde outrora estivera também faziam parte da Patagônia, como Bariloche (Argentina), Lagos Andinos e Puerto Mont (Chile).

Mas dessa vez o que queria de fato era mais ao sul, com a mente cheia de fantasias sobre geleiras e pingüins. Conforme fui lendo a respeito, ficava cada vez mais excitada com a viagem e descobri que muitos amigos já haviam estado lá ou que estavam planejando viagem semelhante. Parece-me que o turismo patagônico está cada vez mais difundido entre nós, até mesmo encontrei inúmeras revistas com matérias sobre a Patagônia. Entretanto, quando fui procurar livros específicos, para a minha surpresa, todos eram importados.

Dei uma "fugida" entre um parto e outro, limitando o passeio todo a não mais do que sete dias. Mas a viagem estende-se com os preparativos e, depois, contando as maravilhas vislumbradas.

Revelar que meus olhos marejaram ao ver pela primeira vez uma geleira, por eles chamada de glaciar (glacial), é pouco para exprimir a emoção que senti, diante da grandiosidade daquele "rio de gelo" entre montanhas e desembocando no lago, onde atingia cerca de 70-80 metros de altura acima da água, onde me sentia pequenina dentro de um barco. Era o Glaciar Perito Moreno, perto de El Calafate, na Patagônia Argentina (figuras 1 e 2). O primeiro passeio foi de barco até próximo à geleira, dentro do Lago Argentino. Depois, fomos de ônibus até a região de plataformas construídas na montanha, do outro lado, para melhor observar a geleira. Lá existe uma cafeteira, mas se puder levar o seu próprio lanche, evitará filas na hora de comprar a sua refeição ou alguma bebida. Descer e subir as plataformas, procurando uma melhor vista, exige um pouco de preparo físico do turista.

A temperatura, apesar de ser mês de dezembro, era baixa: quanto mais perto do glaciar, maior o frio. A temperatura da água do lago era de 2ºC. E o vento, muitas vezes intenso, parecia querer gelar o corpo de pessoas como eu, pouco acostumadas às baixas temperaturas.

A geleira é viva, parece ter vida própria. Manifesta-se com ruídos fenomenais, ruge em toda a sua extensão e se rompe nas extremidades. Quando o fragmento partido despenca nas águas do lago, ouve-se um som por vezes assustador. Fragmentos que se desprendem da geleira vão formar os icebergs, que se espalham pelo lago em suas mais diferentes e curiosas figuras. (figura 3)

Os icebergs eram em maior número e de maiores proporções na geleira de Upsala, com coloração mais azul que a dos glaciares. O dia estava nublado, o que, segundo os guias, aumentava a sua tonalidade azul. O vento, sempre presente, particularmente exagerado na parte externa dos barcos.

Durante toda a viagem usei a minha roupa mais quente de inverno brasileiro, com um casaco à prova de vento, mas lá estava apenas na medida. Em meu primeiro dia em El Calafate, ia saindo com um agasalho de moletom, mas antes que colocasse a cara para fora do hotel, o porteiro me perguntou aonde eu ia com aquela roupa, que fora estava frio e fazia muito vento.

Por falar em roupa, está aí um lugar em que podemos poupar bastante energia, levando apenas o essencial: tênis, meias, roupa íntima, um ou dois jeans, algumas camisetas, um agasalho corta-vento, cachecol, protetor de orelhas e ... só!!! Ao passar de ônibus para o Chile, carregar malas pode ser bastante desagradável, já que lá ninguém se dispõe a ajudar. Ai, minhas hérnias de disco!

Ainda em El Calafate, fomos a uma estância onde havia criação de cordeiros e de bois, um lago maravilhoso, inúmeras espécies de aves e árvores de calafate, que entendi ser o mirtille (em francês) ou blueberry (em inglês). Acho que não temos essa frutinha silvestre aqui no Brasil. Fizeram a exibição de um tosquiador de cordeiros, que lhes adianto, não foi um espetáculo divertido para a platéia e tampouco para a pobre ovelhinha. Os tosquiadores fazem parte de um grupo restrito, que aprende o ofício de pai para filho, e que percorrem as fazendas de cordeiros do país, para tosquiá-los na época oportuna. Vangloriam-se de tirar toda a lã numa manta única. O procedimento exige imobilização especial do bichinho, representando uma cena que também não foi agradável. (figura 4)

De El Calafate fomos a Puerto Natales, no Chile, numa viagem de cerca de seis horas, sendo que duas delas foram na fila da alfândega chilena.

Antes da inspeção alfandegária, alguém tinha um pedaço de queijo que foi dividido por todos, para não ter que ser desprezado: não pode passar quase nada de comestíveis por ali, leite e derivados, nem pensar. Mas esse queijinho veio bem a calhar, aplacando a minha fome. Não tinha a menor idéia de que a viagem seria tão longa e sem nenhuma parada para um líquido ou alguma comidinha.
A cidade de Puerto Natales é base de hospedagem para quem vai a Torres Del Paine, maciço de montanhas de pedra, dentro do Parque Nacional de mesmo nome, com muitos lagos, animais silvestres e cachoeiras. (figuras 5 e 6)

Fizemos excursão de um dia ao parque, em um ônibus de turistas, passando antes pela Cueva del Milodón, caverna de grandes proporções (30m de altura, abertura de 80 m e profundidade de 200m), que abrigava o Milodón, herbívoro de grandes proporções, já extinto provavelmente desde a era pistocena (há uns dez mil anos).

Dentro do Parque Nacional vi umas duas raposas de cor cinza, poucas emas, e muitos guanacos (semelhante à lhama), que correm numa velocidade incrível e são capazes de grandes saltos, agilidade que me surpreendeu pelo grande tamanho desses animais. Os pumas, nunca os vi, pois só saem de seus esconderijos à noite. (figuras 7 e 8)

Ainda no Parque, fomos a uma praia, de acesso apenas a pé, onde se via, numa mesma paisagem, areia, água, montanhas e icebergs azuis. Nunca senti ventania tão forte em minha vida, que quase nos carregava aleatoriamente, desviando-nos da trilha. Parece que o vento é característica pontual do Parque Torres Del Paine, local maravilhoso para os aficionados por trekking .

Na seqüência fomos a Punta Arenas, lá no sul, cidade à beira-mar, no Estreito de Magalhães. Nossa hospedagem foi no Hotel José Nogueira, estruturado dentro de uma das construções mais antigas da Patagônia, e por isso declarada Monumento Nacional. Vale a pena uma espiada em seu site ( www.hotelnogueira.com ). A comida de seu restaurante é de primeira.

Tínhamos somente um dia na cidade, onde fomos para ver pingüins. Era domingo e fui informada de que não existiam excursões regulares. Então, contratamos um senhor que nos levou de carro ao lar desses bichinhos, que ficava a beira-mar, cerca de uma hora de viagem. No caminho, muitos guanacos, cordeiros e emas ( ñandú ).

Eu pensava que fosse ver algumas aves, que não seria um passeio tão interessante, pelas opiniões que ouvira durante a viagem. Entretanto, ver os pingüins e aprender um pouco de seu ciclo foi mais um ponto de emoção da viagem à Patagônia. (figuras 9 e 10)

Não eram pingüins imperiais, altos e de colarinho amarelo, como os que habitam a Antártica, um pouco mais ao sul, mas eram pingüins com caras e penas de pingüins, que andavam com aquele jeito engraçado de pingüins. Percorriam um longo trajeto do mar às pequenas covas que cavavam na terra, para a fêmea botar e o casal, alternando-se, chocar o ovo e cuidar da cria.

Cada pingüim bota um ovo, e em três meses já tem uma cria quase que de seu tamanho. É interessante aprender que pingüins fêmeas e machos têm um desempenho semelhante nos cuidados. Um deles fica na cova e o outro caminha até o mar, onde vai pegar peixes que, na volta, serão regurgitados para alimentar a cria.

Do Estreito de Magalhães para casa foi uma aventura de vôos: Punta Arenas a Santiago, daí a Buenos Aires e então para São Paulo, tudo no mesmo dia, em três diferentes companhias aéreas.

Valeu a pena? Sem dúvida, a intensidade dos sentimentos ao ver geleiras, icebergs, guanacos e pingüins está carinhosamente guardada em minha lembrança e em minhas fotografias.


Dra. Luciana Nobile
E-mail: luciananobile@brevesdesaude.com.br

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