Obesidade: Herança genética, hábitos de vida e o "efeito sanfona"
Profa. Dra. Anete Hannud Abdo

Até há pouco tempo, a obesidade era considerada simplesmente como o resultado de uma ingestão excessiva de calorias associada à vida sedentária, e o obeso era tido como uma pessoa "sem força de vontade", recaindo sobre ele uma enorme culpa pelo seu estado. Estudos atuais, no entanto, trouxeram evidências de que a herança genética parece ser muito importante na gênese da obesidade. Por exemplo, a intensidade da obesidade de crianças adotadas assemelha-se muito mais com o de seus pais verdadeiros do que com o de seus pais adotivos, mostrando que os fatores genéticos podem ser mais importantes do que o ambiente e os costumes alimentares das famílias que adotaram estas crianças. Outro exemplo que ilustra a importância da herança genética é a dos casos de gêmeos idênticos, que mostram um padrão de evolução do peso muito semelhante, mesmo que não tenham sido criados juntos.

Mas nem tudo é genética. O aumento alarmante da obesidade no mundo nos últimos anos não ocorreu por mudanças genéticas importantes, mas sob grandes modificações nos hábitos de vida dos povos. Paradoxalmente, o progresso tecnológico gerou facilidades (escadas-rolantes, controles-remotos, televisão, internet, etc), que conspiram contra a saúde ao fazer as pessoas ficarem cada vez mais sedentárias; por outro lado, a industrialização tornou os alimentos mais acessíveis, mais palatáveis, mas muito mais calóricos.

As migrações também podem nos mostrar com clareza a influência do meio ambiente na gênese da obesidade. Japoneses que moram no Japão aumentam de peso quando migram para os Estados Unidos, pois modificam sua alimentação e tornam-se mais sedentários. O mesmo acontece com índios que saem de suas tribos para viver nas cidades, absorvendo os hábitos de vida pouco saudáveis dos "homens brancos".

O peso dos cães também pode ser influenciado pela obesidade de seus donos!

Para não deixar dúvidas da importância do meio ambiente, veja os resultados deste estudo interessante que foi feito com cães domésticos e seus donos (e com certeza não existe aqui nenhuma herança genética...): cães cujos donos são magros têm 25% de chance de se tornarem obesos, mas se os donos são obesos, esta porcentagem sobe para 44%!

Se deixarmos de lado problemas orgânicos que podem levar ao aumento de peso, como algumas doenças ligadas às glândulas endócrinas, podemos concluir que a obesidade resulta de uma complexa interação entre a genética, como fator predisponente importante, e fatores ambientais que agem como desencadeantes do aumento de peso.

Ao menos por enquanto, não temos meios de modificar os fatores genéticos, portanto o tratamento do obeso depende fundamentalmente de mudanças no seu estilo de vida. Alguns medicamentos podem ajudar, mas não fazem o serviço sozinhos. A reeducação alimentar e a atividade física são essenciais, e devem ser incorporadas no nosso dia a dia de forma permanente. Lembre-se de que isto vale também para quem não está obeso, ou seja, vale para toda a família, pois faz parte de uma vida saudável, prevenindo doenças.

Se estas mudanças no estilo de vida forem temporárias, ou seja, postas em prática somente enquanto estamos "de regime", o preço a pagar com certeza será o famoso "EFEITO SANFONA". E aqui vão mais algumas dicas para evitar que este indesejável companheiro fique no nosso caminho:

Evite perder muito peso em pouco tempo

Em geral isto é conseguido com dietas de muito baixas calorias, ou com dietas muito restritas e não balanceadas, ou mesmo com jejum prolongado. Nestes casos o efeito sanfona vem porque:

•  Ninguém consegue manter por muito tempo este comportamento alimentar.

•  A falta de nutrientes na proporção adequada pode levar à compulsão, e com isto trazer os quilinhos de volta. Portanto, a "dieta da sopa" ou "do abacaxi", entre outras, pode fazer você perder peso rápido, mas você recupera o peso depois.

•  Se você diminui muito a ingestão total diária de calorias, o organismo se defende diminuindo o metabolismo para recuperar o peso perdido. Você não deve ingerir menos de 800 calorias por dia.

•  Se você passa muitas horas sem se alimentar, a fome pode se tornar incontrolável na próxima refeição, e você vai acabar ingerindo um número maior de calorias. É importante alimentar-se a cada 3 horas.

•  Comer devagar: cultive o hábito de comer devagar, sem ansiedade, procurando saborear os alimentos. Se você come depressa, não há tempo para que a mensagem de que já foi atingido o número de calorias necessário para "matar a fome" chegue ao cérebro gerando a sensação de saciedade. 
 
•  Atividade física: escolha uma atividade física com a qual você se identifique, que lhe dê prazer, pois só assim você conseguirá fazê-la regularmente. Além da síntese de endorfinas (que geram sensação de bem-estar) e do gasto de calorias,  o aumento da massa muscular eleva o metabolismo, sendo um dos principais responsáveis pela manutenção da perda de peso conseguida.

Horário das refeições

Reserve um horário para as refeições. Se você come enquanto está ocupado com outros afazeres, você acaba não percebendo a quantidade ingerida e comendo muito mais.

Emocional

Cuide do emocional. Muitas vezes o efeito sanfona acontece porque as pessoas procuram compensar através da comida suas frustrações. Enquanto os problemas psicológicos estiverem mal resolvidos, a busca do prazer na comida vai fazer o peso voltar.

E aqui vai uma última dica, mas não menos importante: o sucesso na diminuição do excesso de peso está em você assumir a responsabilidade pelo tratamento juntamente com o profissional da saúde, e não colocar nele, ou em algum medicamento, "fórmula" ou "spa", a esperança de um "milagre".

A propósito, muita gente recorre a medicamentos para emagrecer, muitas vezes sem controle médico, achando que seu uso por si só já é suficiente para perder peso, sem o "sacrifício" da dieta e do exercício. Não se engane! Seja qual for o medicamento, ele é somente um auxiliar no tratamento, e nem sempre é necessário, mas se você não fizer a sua parte, seguindo uma alimentação saudável e praticando atividade física, vai voltar a engordar quando ele for suspenso.

Emagrecimento com saúde se faz de maneira progressiva e duradoura, através de mudanças permanentes no estilo de vida e harmonia entre corpo e mente. Pense nisso, e boa sorte!

Sites recomendados:

SBEM (Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia:
www.endocrino.org.br

Site do PRATO (Projeto de Atendimento ao Obeso), em reformulação:

www.pratohc.org



Profa. Dra. Anete Hannud Abdo
Especialista em Endocrinologia e Metabologia pela Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM).
Doutora em Endocrinologia pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP).
Médica endocrinologista assistente do Projeto de Atendimento ao Obeso - PRATO - do Instituto de Psiquiatria do HC-FMUSP.

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