Breves

Literatura impura
Textos selecionados por Renata Pallottini

A história do romance policial se enriqueceu com o nascimento de Georges Simenon, em 1903. Simenon, autor belga cujo principal detetive, o Comissário Maigret, tem seu ponto de referência em Paris, no Quai des Orfèvres, à beira do Sena, produziu uma larga obra no gênero. Há no entanto toda uma vertente da obra de Simenon que não tem propriamente características de policial, mas sim de novela psicológica. Entre os trabalhos desse tipo está L´Assassin, de 1935, de onde extraímos este trecho:

"O carrilhão da sala de jantar deu cinco horas e o médico, sentado numa poltrona, levantou-se para apanhar um charuto na caixa em cima da mesa. Hesitou, porém, pensando que não seria correto receber seus convidados de charuto na boca.
         
No mesmo instante, esboçou um sorriso sarcástico e cortou com os dentes a ponta do charuto. Que diabo! Esquecera que aquelas mesquinharias já não contavam para ele. Que lhe importava que a sra. Van Malderen ficasse chocada? O mais divertido é que ela não ficaria chocada. Estava habituada ao cheiro de charuto. Então por que, durante anos e anos, ele não se permitira fumar enquanto esperava convidados?"


Sim, a pergunta é esta: por que, durante anos e anos, não nos permitimos?


Renata Pallottini
Poeta e dramaturga, autora de "Um calafrio diário", poesia, ed. Perspectiva; "Dramaturgia de Televisão", ensaio, Ed.Moderna; "Ofícios e Amargura" , romance, Ed. Scipione; "As três Rainhas Magas", infantil, ed. Brasiliense, entre outros títulos.

Indicação de livro
Trilhos e Quintais, de Carmen L. Oliveira - Editora Rocco


'Trilhos e quintais' retrata o cotidiano de uma cidade pequena, afastada dos centros urbanos mais desenvolvidos, no início da década de 30. Trata das transformações decorrentes não só dos efeitos da revolução de 1930 na periferia mineira, mas também dos costumes e da cultura de uma típica cidade do interior, onde os trilhos trazem as notícias, levam os ideais; ligam os quintais cheios de vida da cidade de Cupim aos grandes centros urbanos. Seguindo esses trilhos, o leitor vai percorrer um pouco da nossa história recente, através de uma rica galeria de personagens." A maneira de escrever de Carmem L. Oliveira nos leva até Guimarães Rosa, pelo ritmo e maneira como detalha o que descreve.





Carmen Lucia Oliveira
Carmen L. Oliveira nasceu no Rio de Janeiro. Pós-graduada em Literatura nos Estados Unidos, é autora do livro Flores raras e banalíssimas, sobre a vida íntima da urbanista Lota Macedo de Soares e a poeta Elizabeth Bishop (editado pela Rocco).

Versos
Selecionados de Anésia Pacheco Chaves

Entre os lençóis

Cama vazia. O vazio das camas. No entanto, freqüentemente ocupadas. Mas com médio tesão e pouca emoção! Indiferentes um ao outro, os parceiros cumprem o ato físico, sem ligação ao psíquico/emocional nem ao pensamento que o erotismo pode tornar mais intenso. Essa indiferença constatada na cama, mesmo se o ato é executado com ativa eficiência, podemos encontrá-la na vida em geral ... Segundo Reismann, é uma indiferença não ligada à falta de motivação (fim de crença em religiões, ideologias, políticas, etc.), mas à fraca motivação, a uma "anemia emocional". Nesta situação, o individualismo (já que aprece, é só o que conta) não se liga ao social (ao consumo talvez, que também é social), mas mesmo aí, a crise econômica está tornando o consumo difícil, tirando parte de seu interesse para o eventual consumidor. Sindicatos, uniões religiosas e assistenciais mantém um débil interesse. A estética abrange isso tudo com pouca criatividade. Os lençóis não ficam amarrotados pela paixão. Apenas marcam presença, entre os "condoms", os "shampoos", os cremes para emagrecer ou de barbear e/ou embelezar. Para Gilles Lipovetsky, estamos em pleno Pós-Modernismo. Os dramas deixaram para muitos de ser dramas. São apenas "cool". Para a geração que sobrou do Modernismo, época que foi ardente, criativa e desenvolvimento esses lençóis neutros trazem um arrepio de (frustação/saudade?) que, no meu trabalho traduzo por arames e pregos. Símbolos, bolos ainda, de emoções e paixões que hoje, para a maioria da nova geração mostram bem fracos ... Para os ainda e tardios Modernistas machucam...

Que falta fazem os lençóis amassados, a poesia delirante, as crenças e o erotismo que transforma o corpo num ser inteiro, pensante, e capaz de emoção, paixão a prazer...

Anésia Pacheco Chaves
Escritora e artista plástica.
Predição - ensaios. Ed. Árvore da Terra, SP - 2003, pp.11 e 12.

Foto escolhida
São Francisco Xavier, lugarejo de proteção ambiental

Em alguns lugares por onde estive, senti paz, tranqüilidade... são momentos eficientes de desligamento da agitação de São Paulo! Esse estado de espírito é freqüente para quem vai a São Francisco Xavier - SP, a quase 150km daqui, lugarejo de proteção ambiental na Serra da Mantiqueira, que pertence ao distrito de São José dos Campos.

É a terra do macaco muriqui, que alguns locais dizem já ter visto, mas provavelmente por não me aventurar matas adentro, eu pessoalmente nunca me deparei com um espécime que dizem medir, na idade adulta, cerca de 1m de altura.Terra de montanhas, rios, cascatas e cachoeiras, em que o contato com a natureza se estabelece naturalmente. Parece ter cerca de 3 mil habitantes. A população, em grande parte proveniente da zona rural, é muito simpática e receptiva.

Inaugurada em fevereiro de 2004, por iniciativa do Sr. Sidnei Pereira Rosa, que a administra com doações, a Biblioteca Solidária faz atualmente cerca de 500 empréstimos mensais.

SFXavier tem sido refúgio para mim, para estudar, escrever, me divertir e relaxar. Em duas ocasiões vi desfile de tropeiros pela cidade, com cavalos, carros de boi e muito barulho, verdadeira festa para arremeter ao passado.

Citarei alguns locais que me despertam um carinho especial, por suas peculiaridades. São tantos locais interessantes, que estou sendo injusta discorrendo apenas sobre alguns deles. Mas isso pode ser reparado acessando os sites indicados no fim do texto.

O Photozofia Cybercafé construído com muito bom gosto, utilizando material de demolição num projeto arrojado, sob supervisão do Sandro, o proprietário, abriga apresentações artísticas musicais quase todos os sábados do ano. (vide foto da fachada)

A pizza do Caboclo , servida em pedra sabão que a mantém quentinha e crocante, é das mais caprichadas que já experimentei. De sobremesa, os doces da Vilma ou a pizza crocante de banana caramelizada do pizzaiolo e proprietário Donizete, que prepara suas redondas com muita seriedade. (foto ao lado)

Na rua principal, no miolinho central, têm ainda o La Boca , dos simpáticos Rosendo e Graziela, com carnes, aves e peixes que podem ser acompanhados de um maravilhoso arroz integral e o Mineiro , restaurante da assídua Vilma, com comida caseira, aberto todos os dias do ano, para almoço e jantar. O Mineiro já me socorreu em inúmeras situações, em que nenhum outro restaurante abria durante a semana, fora de feriados. Atualmente a Pousada São Francisco , também no centro da cidade, tem servido refeições caseiras todos os dias.

Num local onde muitas vezes se pretende fugir de obrigações da cozinha, essas informações são fundamentais. Fazer churrasco é muito bom, mas em uma semana de descanso, acima de duas ou três vezes já é demais, para o próprio paladar. Afora que essas saídas para as refeições nos permitem conhecer melhor a comunidade local. Até o café da manhã é fora, na pequena padaria da Carmem , autora de excepcionais pães de abóbora, que em geral trazemos para os amigos da capital.

O Trutário , com íngreme estrada de acesso, que não atrevo a tomar em dias de chuva, tem maravilhosa criação de trutas, um lago paradisíaco onde é possível pescar (vide foto) e ainda um local rústico para saboreá-las fresquinhas, com receitas variadas, sendo muito interessante a com shitake, colhido em cultivo da comunidade local. A alimentação das trutas promove grande agitação dos peixinhos, que se movem rapidamente, saltitantes atrás de sua ração, emitindo reflexos prateados, num momento efêmero que mais lembra um balé e que minha digital não conseguiu reproduzir com fidelidade. (foto ao lado)

Já encalhamos pelas estradas na montanha. Eu me vi descalça, com os pés no barro, cheio de minhocas, em dia chuvoso, tentando desatolar o carro. Divertido, por ter conseguido sair, mas teria sido muito desagradável se ali tivéssemos emperrado de fato.

Sabor e Arte , na rua principal de SFXavier, oferece o que a cidade tem de melhor em artesanato. Lá somos atendidos por Dilza e Paulo, proprietários do local. Parece-me que a maior parte de sua mercadoria vem de Minas Gerais. A cidade conta ainda com criativos artesãos, que trabalham com vidro, cerâmica e luminárias. (foto ao lado)

SFXavier tem inúmeras pousadas, na cidade e nas montanhas, onde a vista e o contato com a natureza são espetaculares. Almoçando no restaurante da Pousada Santa Bárbara , encravada na montanha, tive oportunidade de fotografar dois pássaros comendo metade de uma papaia: um azul e o outro verde, que parecem ser casal. (foto ao lado)

Sites indicados:
www.saofranciscoxavier.org.br

www.saofranciscoxavier.net

www.saofranciscoxavier.com.br

 

 

 

 

O Muriqui

Muitos animais silvestres estão ameaçados de extinção por causa da redução de seus habitats e da caça.

Um deles é o muriqui ou mono-carvoeiro, o maior macaco das Américas, ameaçado de extinção, só encontrado nos remanescentes da Mata Atlântica do Sudeste do Brasil.

O muriqui foi escolhido como símbolo de São Francisco Xavier para demonstrar a riqueza natural das montanhas que cercam o distrito e a necessidade de sua preservação.

A importância das áreas de mata primária e em recuperação se reflete na qualidade da fauna, com muitas espécies endêmicas e ameaçadas de extinção. Isso torna, portanto, a região de grande valor ecológico, sendo um convite a pesquisadores e amantes da natureza para visitar e conhecer esta parte da nossa minguada Mata Atlântica.

Trecho extraído do site www.saofranciscoxavier.org.br


Dra. Luciana Nobile
Ginecologista e Obstetra
Editora de Breves de Saúde, o Boletim Eletrônico da Mulher
E-mail: luciananobile@brevesdesaude.com.br

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