Prevenção de anencefalia
Dra. Luciana Nobile

Alguns temas "entram na moda" de tempos em tempos na mídia brasileira. É o caso da discussão sobre a interrupção da gravidez quando do diagnóstico da anencefalia, que como o próprio nome diz, são fetos que se desenvolvem sem cérebro, incapazes de sobreviver mais que poucos dias na vida extra-uterina. Autorizar ou não a interrupção da gestação diante dessa anomalia? Em quais outros tipos de malformação fetal deveríamos discutir o abortamento terapêutico? Até que momento da gravidez poder-se-ia provocar o abortamento ou o parto prematuro, diante de malformações fetais específicas, já que hoje é possível proceder aos diagnósticos com precisão, ainda na vida intra-uterina?

Existem riscos maternos na indução do abortamento? E os mecanismos de trabalho de parto, não estão prejudicados em alguns tipos específicos de malformação fetal?

Quem deve decidir pela interrupção da gravidez, o juiz, a igreja, os pais, a mãe ou a sociedade? Quem arca com a dor e os ônus de tal situação?

A essas questões pode-se adicionar inúmeras outras, que tentaremos abordar em nossos Boletins. O tema é muito delicado, tem sido amplamente debatido na mídia, mas a discussão deve se arrastar por muito tempo.

No momento, meu foco de discussão é a prevenção dessa malformação e não como proceder diante de sua ocorrência.

O que são os "defeitos do tubo neural" (DTN)?

Nessa breve apresentação, centralizo a discussão nas possibilidades de fatores de risco e de como reduzir a incidência dos assim chamados de Defeitos do Tubo Neural (DTN), onde se encaixam a anencefalia, a hidrocefalia, a meningomielocele e a espinha bífida.

A anencefalia é portanto mais uma manifestação de malformação do tubo neural do feto, por alguma falha durante o seu desenvolvimento. É um DTN em sua apresentação mais grave. Não existe cérebro bem constituído, há um desabamento ou ausência da calota craniana e isso não permite qualquer possibilidade de vida extra-uterina, ou seja, após o parto, além de algumas horas ou dias.

A hidrocefalia é o quadro clínico em que existe dificuldade de drenagem do líquor, que se acumula dentro da calota óssea da cabeça e comprime a massa encefálica e, quando muito acentuada, também promove morte intra-uterina ou no período neonatal.

Em alguns grandes centros médicos a hidrocefalia tem sido corrigida na vida intra-uterina, quando o diagnóstico é inicial; diagnóstico tardio inviabiliza a intervenção, pois nesses casos a hidrocefalia já é acentuada e teria comprometido a sobrevida neonatal. É um procedimento de alta complexidade e de risco materno e fetal.

A associação de meningomielocele (não fechamento completo do tubo neural, formando uma bolsinha com líquor nas costas) com a hidrocefalia é usual.

A espinha bífida (também fechamento incompleto do tubo neural), entre outras complicações, pode determinar alguma dificuldade na marcha, podendo apresentar-se, nas formas mais graves, com paralisia de membros inferiores.

Essas malformações são dramáticas, pelos tantos danos que impõem aos conceptos afetados. Determinam sofrimento familiar imensurável, com envolvimento emocional de toda a equipe que assiste a gestante.

Antigamente, e não é há tanto tempo atrás, esses diagnósticos eram realizados em geral por ocasião do nascimento. Há cerca de 25 anos, quando da introdução da ultra-sonografia na prática médica, começou a possibilidade do diagnóstico ainda na vida intra-uterina. Conforme se aperfeiçoaram os aparelhos de ultra-som, cada vez é mais precoce o diagnóstico.

Mas em realidade esses casos podem ser evitados, ao menos em grande parte, promovendo-se a sua prevenção.

Ácido fólico na prevenção dos DTN

Pretendo alertar minhas leitoras e incentivá-las ao uso contínuo e sistemático do ácido fólico, conduta a ser observada por toda a população feminina em idade reprodutora, como meio eficiente de reduzir o risco de malformações fetais da categoria DTN .

Inúmeras pesquisas, em diferentes regiões do planeta, têm comprovado a eficácia da ingestão dessa vitamina do complexo B na prevenção dos DTN e em alguns países é obrigatória a sua adição na farinha de trigo, como uma maneira eficaz de seu consumo em quantidades adequadas. É drástica a redução dos índices desse tipo de malformação fetal.

A reposição de ácido fólico é recomendação também da OMS (Organização Mundial de Saúde).

Quando e quanto tomar do ácido fólico?

A dose de 2mg/dia é mais que suficiente. Em mulheres que já tiveram um neném com DTN, preconiza-se a dose de 5mg/dia.

O ideal é iniciar o ácido fólico uns dois meses antes da concepção, mantendo-o durante o primeiro trimestre da gravidez. Ele não tem efeitos colaterais e, importante, NÃO ENGORDA!!!

Para evitar que as mulheres se esqueçam de dar início ao uso dessa vitamina, seria interessante que TODAS a tomassem regularmente quando em idade fértil e sem um método contraceptivo eficaz.

A prevenção das DTN é uma questão de programas de saúde pública em várias populações civilizadas e esperamos que aqui também seja encarado dessa maneira, atrelando à discussão do abortamento no DTN, a discussão de seus fatores de risco (ambientais e antecedentes pessoais) e a sua prevenção.

Fatores de risco na anencefalia

Pacientes com antecedentes de ter tido anteriormente neném com acometimento do tubo neural, têm risco aumentado de recidiva em gestão ulterior. Esse risco é maior quando uma mesma mulher teve mais de um caso de DTN.

Há alguns anos atrás, contava-se que a incidência de DTN em Cubatão/SP era excessivamente elevada. Após o melhor controle da poluição, os índices teriam normalizado.

Nas matérias divulgadas na mídia, às vezes citam-se casos de anencefalia ocorrendo em uma mesma cidade. Ou seja, cidades pequenas, com mais de uma ocorrência em período curto. Se isso de fato é verdadeiro, é uma oportunidade para a vigilância sanitária entrar em ação, para estudar a localidade, indo atrás de fatores de risco para esse tipo de malformação.

Não estariam essas cidades com alguma alteração ambiental importante, atuando na gênese de malformações? Isso merece investigação.

Dra. Luciana Nobile
E-mail: luciananobile@brevesdesaude.com.br

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