Breve história da ultra-sonografia
Dra. Simone Noto Guariglia

A "Teoria do Som" foi publicada pela primeira vez em 1877, por um cientista inglês chamado Lorde Rayleigh. Este tratado praticamente inaugurou a física acústica moderna.

Durante a Primeira Guerra Mundial, esta teoria foi posta em prática. A utilização de geradores de sons de baixa freqüência facilitava a navegação submarina, permitindo a detecção de icebergs distantes até 5 quilômetros.

A primeira patente de um rastreador submarino foi registrada em 1912 na Inglaterra, apenas um mês após o naufrágio do Titanic, que provavelmente encontrou um bloco de gelo pela frente.

Durante a Segunda Guerra Mundial, o estudo da utilidade dos ultra-sons para fins militares foi aprimorado com o desenvolvimento do SONAR (sigla em inglês para Sound Navigation and Ranging, ou seja, navegação e determinação da distância pelo som). O desenvolvimento do RADAR (sigla para Radio Detection and Ranging, ou detecção de distâncias através de ondas de rádio) utilizava-se, analogamente, do eco de ondas de rádio para a determinação de distâncias e localização de objetos no ar.

Ainda neste período, o desenvolvimento do uso dos ultra-sons para fins não-militares foi notável também na metalurgia (ex., para detecção de fissuras em metais).
Estes aparelhos anteriormente descritos são considerados precursores dos aparelhos de ultra-sonografia utilizados em medicina.

A utilização dos ultra-sons em medicina foi feita primeiramente no âmbito terapêutico, tendo sido empregado empiricamente em várias áreas, desde o tratamento de artrite reumatóide até tentativas de remissão da Doença de Parkinson em neurocirurgia. Em 1940, chegou a ser considerado uma verdadeira panacéia, mas como sua utilização não se fundamentava em comprovações científicas, o método foi gradativamente abandonado devido à falta de resultados satisfatórios.

Nesta mesma década, idos de 1940, o ultra-som foi utilizado pela primeira vez em medicina diagnóstica. Karl Theodore Dussik, neuropsiquiatra da Universidade de Viena, tentava localizar tumores e verificar o tamanho dos ventrículos cerebrais, através da mensuração da transmissão dos sons pelo crânio.

O médico Americano Douglas Howry, auxiliado por sua esposa também médica, Dorothy Howry, também é considerado um dos pioneiros na utilização da ultra-sonografia diagnóstica, tendo sido condecorado pela Sociedade de Radiologia da América do Norte em 1.957. Entretanto, nesta época o paciente tinha que ficar submerso e imóvel dentro de uma banheira com água para a realização do exame (vide ilustração). Um procedimento nada prático e que produzia imagens de baixa qualidade e resolução.

Na década de 1950, foi desenvolvido o método utilizado ainda hoje. A banheira de água foi substituída por uma pequena quantidade de gel (parecido com aquele usado nos cabelos), que serve para aumentar e melhorar a superfície de contato entre a pele e o "transdutor". O transdutor é o nome dado a qualquer dispositivo que transforme um tipo de energia em outro; como exemplo, podemos citar de forma análoga um alto-falante, que transforma os impulsos elétricos que chegam através dos fios em som, ou seja, energia elétrica em energia sonora.

Na natureza encontramos exemplos de animais que utilizam o ultra-som para se localizar e caçar, como os golfinhos e os morcegos, que não tendo uma visão muito aguçada, substituíram-na pela audição.

A primeira observação sobre os morcegos foi feita em 1793, por Spallanzani, naturalista italiano. Constatou que os morcegos, mesmo impedidos de enxergar, desviavam-se de obstáculos e apanhavam as suas presas no ar. Ao contrário, quando eram impedidos de ouvir, através da aplicação de tampões de cera em seus ouvidos, porém com a visão mantida, perdiam completamente a capacidade de orientação em vôo.

O princípio que rege a utilização de ultra-sons baseia-se na emissão de um pulso ultra-sônico que, chegando a um objeto, retorna como um eco, cujas características possibilitam determinar a localização, tamanho, velocidade e textura deste objeto.
As ondas acústicas podem ser classificadas em infra-sons, sons e ultra-sons. Tal classificação foi baseada na capacidade que estas ondas têm de impressionar o ouvido humano, sendo que as ondas que possuem esta propriedade situam-se numa faixa de freqüência compreendida entre 20 e 20.000 Hertz (ciclos por segundo).

Os ultra-sons situam-se em freqüência maior que 20.000 Hertz e, especificamente na área médica diagnóstica, a freqüência utilizada é da ordem de milhões de Hertz.
Assim, na realização do exame ultra-sonográfico, utiliza-se um aparelho com complicado mecanismo eletrônico, que consegue transformar energia elétrica em energia acústica e vice-versa, e posteriormente, os sinais elétricos em imagem projetada num monitor de televisão, onde são visualizados os órgãos do corpo humano.

Durante o exame ultra-sonográfico acomoda-se confortavelmente o(a) paciente numa maca/cama, aplica-se o transdutor com gel, deslizando delicadamente sobre a pele da região a ser analisada. Neste caso, o transdutor é o responsável por transformar os ecos refletidos pelo interior do corpo humano em sinais que serão decodificados eletronicamente em uma imagem que, por sua vez, será interpretada pelo médico que estiver realizando o exame.

Este método é largamente difundido mundialmente e em praticamente todas as áreas médicas, devido à simplicidade com que é feito, ao seu baixo custo em relação a outros métodos diagnósticos e, principalmente, por ser inócuo, ou seja, não tem contra-indicações e não promove alterações secundárias à sua aplicação.
Desta forma, é um exame que pode ser largamente utilizado na área preventiva, para diagnosticar lesões no organismo ou para controlar lesões que estejam sendo tratadas clínica ou cirurgicamente, com quimioterapia ou radioterapia, etc.

Leitura complementar

http://www.ob-ultrasound.net/history.html

Dra. Simone Noto Guariglia
Médica ultra-sonografista do Laboratório Fleury, São Paulo – SP, com formação no Departamento de Radiologia do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo.

Nota da editora

A Dra. Simone é uma entusiasta da ultra-sonografia, tem sólida experiência e me parece que se empolga ao afirmar que se trata de um método simples e de custo relativamente baixo. O profissional que manipula o aparelho, ao menos em nosso meio, é médico formado, tem especialização e precisa de vários anos para adquirir experiência na interpretação das imagens. Os aparelhos têm se aprimorado, sendo que os mais sofisticados chegam a custar acima de trezentos mil dólares. E, como apresentei no boletim #00, naquele número experimental, o exame ultra-sonográfico das mamas requer aparelho de boa qualidade e profissional experiente em sua execução, para ter confiabilidade. Entretanto, se considerarmos o custo dos tomógrafos e aparelhos de ressonância magnética, aí sim poderemos considerar a ultra-sonografia uma metodologia mais acessível.


Dra.Luciana Nobile

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