Hemorróida, essa coisa feia e sem graça
Dra. Cleide Gonçalves de Almeida

Uma das queixas mais freqüentes no consultório de gastroenterologistas e proctologistas, diz respeito à presença das hemorróidas. É interessante observar que, independente da doença que afete o ânus ou o canal anal, o paciente queixa-se de que “sofre de hemorróidas”.

Não é nosso objetivo, neste texto, abordar outras doenças orificiais, tais como as fissuras e os abscessos/fístulas perianais, mas sim tentar esclarecer e orientar as pessoas sobre esta tão freqüente patologia: hemorróidas. Hemorróidas são dilatações venosas que surgem no ânus ou no canal anal. O nome tem origem na denominação das veias que aí se localizam e drenam essa região, as veias hemorroidárias. São classificadas em internas ou externas, conforme sua localização e em graus, de acordo com seu comportamento:

1º grau: não são visíveis externamente, mas podem sangrar às evacuações.

2º grau: exteriorizam-se durante a defecação, mas retornam espontaneamente ao canal anal, onde permanecem até o próximo evento.

3º grau: permanecem, constantemente, para fora do canal anal.
Os sintomas mais freqüentemente relatados pelos pacientes, são: sangramento anal, exteriorização de pele ou caroço em região anal, sensação de peso no reto, desconforto ou coceira anal, dor intensa e coágulo ou caroço em região anal (trombose hemorroidária) e saída de secreção (muco) que suja a roupa íntima.

Aqui, vale ressaltar que muitos pacientes, principalmente as mulheres, sentem-se desconfortáveis por não conseguir realizar adequada higiene da região, mesmo lavando-se sistematicamente após as evacuações. No entanto, nada se compara ao constrangimento de exibir para o(a) parceiro(a) sexual algo que consideram antiestético.

Se considerarmos os estragos que uma simples estria ou um pouco de celulite conseguem fazer na auto-estima feminina, podemos entender todo o drama daquelas mulheres que possuem hemorróidas de 3º grau, exteriorizando-se para fora do ânus e deformando-o. Nessas circunstâncias, a preocupação maior passa a ser em como esconder os genitais para que o parceiro não perceba as suas hemorróidas, em como fazer sexo sem que elas sejam identificadas. Seguramente, este é um fator limitante para o relacionamento sexual e interfere, negativamente, na libido feminina.

Entre as causas aventadas como predisponentes para o surgimento de hemorróidas, temos:

1 - Nossa condição de bípedes. Na evolução das espécies, desde que o Homem assumiu a posição ereta, houve uma alteração na coluna de pressão do sangue. Como esta é maior nas extremidades, as pernas (no caso dos membros) e o ânus (no caso do tubo digestivo) suportam as maiores pressões sobre os vasos sangüíneos e estes podem dilatar, dando origem às varizes das pernas e às hemorróidas, no ânus.

Vaso sanitário não é poltrona! É bom lembrar também que, pelo mesmo raciocínio, vaso sanitário não é poltrona. Nada de ler o jornal de domingo inteiro, sentado no vaso. Quanto maior o tempo sentado no vaso, maior a pressão sobre as hemorróidas. O resultado é que você sai do banheiro com as hemorróidas totalmente para fora. Conclusão: só vá ao banheiro quando estiver com vontade de evacuar. Se por algum motivo não conseguir, levante-se e aguarde o próximo reflexo de evacuação, que pode ser percebido após as refeições.

2 - Distúrbios do funcionamento intestinal (diarréia e, mais freqüentemente, constipação intestinal).

3 - Hereditariedade.

4 - exercícios físicos ou esforço para carregar peso exagerados. Aqui, não podemos deixar de citar o parto normal como exemplo de grande esforço físico e que pode ser responsável pelo surgimento de hemorróidas. Neste caso específico, o mais freqüente é que as hemorróidas desapareçam após um período de tempo.

5 - Aumento da pressão dentro do abdômen que ocorre, por exemplo, na gestação e na obesidade.

O diagnóstico é feito pelo médico especialista, baseado nos dados de história clínica e exame físico detalhado, que deve incluir, obrigatoriamente, a inspeção da região anal e o toque retal.

A boa prática médica recomenda que toda e qualquer queixa de sangramento anal seja melhor investigada, com retossigmoidoscopia e/ou colonoscopia, mesmo que o paciente seja portador de hemorróidas.

Explico: não é raro que um paciente com hemorróidas, doença muito freqüente na população, seja portador também de pólipos ou outras lesões mais altas, inclusive câncer do reto e dos cólons, e que sejam os responsáveis de fato pelo sangramento.
Uma vez confirmado o diagnóstico, analisa-se a melhor proposta de tratamento que inclui, sempre, a regularização do funcionamento intestinal e medidas terapêuticas clínicas ou cirúrgicas.

De modo geral, o bom funcionamento do intestino depende de medidas dietéticas simples, que incluem a ingestão de fibras e de líquido em quantidades adequadas. Não se recomenda o uso habitual de laxantes.

Se apenas tais medidas não forem suficientes para o controle dos sintomas ou se as hemorróidas já apresentam complicações, pode-se optar, sempre em função da mais adequada solução para cada caso, por:

- escleroterapia
- ligadura elástica
- criocirurgia
- cirurgia convencional

Nos últimos anos, também pudemos incorporar ao arsenal terapêutico um método que utiliza um grampeador e que, quando bem indicado, pode proporcionar uma recuperação pós-operatória muito mais confortável. Este método, conhecido como P.P.H. – Procedimento para Prolapso e Hemorróidas – baseia-se na retirada de uma faixa de tecido que reveste o final do reto e o início do canal anal. Como conseqüência, o tecido remanescente é puxado para cima e diminui-se, assim, a exteriorização das hemorróidas.

Particularmente, não pratico escleroterapia nem criocirurgia, por julgar que os outros métodos citados preenchem, totalmente, a necessidade terapêutica de meus pacientes, com segurança e conforto.
Vale lembrar ainda, antes de encerrar este texto que, nos dias atuais, a cirurgia convencional não é mais encarada como causadora de profundo sofrimento para aqueles que se submetem ao método.

A adequada anestesia, a técnica cirúrgica delicada e precisa e o uso de medicação analgésica potente propiciam bom resultado terapêutico e um período pós-operatório bastante confortável.

Com este método, a pele que já perdeu a elasticidade é retirada e as veias hemorroidárias são amarradas, dentro do canal anal, o que garante que as hemorróidas não voltarão a aparecer. É a técnica que, em minha opinião, propicia os melhores resultados estéticos. E beleza, citando Vinícius de Moraes, é fundamental...

Na dificuldade de ilustração mais realista, as fotos remetem as hemorróidas à memória daqueles que delas padecem. 



Dra. Cleide Gonçalves de Almeida
Gastroenterologista, especialista em cirurgia do aparelho digestivo e cirurgia geral. Da equipe de urgência do Pronto Socorro de cirurgia do Hospital do Servidor Público Municipal, minha companheira de cirurgia dos últimos 20 anos.
E-mail: cleide.almeida@terra.com.br / almeida_nobile@terra.com.br

E-mail: luciananobile@brevesdesaude.com.br
Copyright (c) 2005 - Todos os direitos reservados. Fotos ilustrativas.