| O papel do ginecologista
Dra. Luciana Nobile Percebo com o passar dos anos, cada vez com maior lucidez, que o(a) ginecologista pode e deve assumir importante papel na saúde da mulher. Não como clínico(a), propriamente dito, que medica as diferentes doenças, tais como a hipertensão ou o diabete, porque todos os dias saem tratamentos novos e exames mais sofisticados e específicos a cada especialidade. Tampouco tenho a idéia de que o(a) ginecologista comum deva ter formação cirúrgica geral, suficiente para proceder aos diferentes tipos de cirurgia. Mas acredito sim que o(a) ginecologista pode desempenhar com eficiência o trabalho daquele(a) clínico(a) antigo(a) que ouvia a paciente, tentava entender a queixa atual que motivara sua ida à consulta, permitia que ela contasse suas histórias e angústias, tirava uma história completa dos antecedentes pessoais e familiares, fazia exame físico geral, afora o exame ginecológico,
que a especialidade nos permite fazer com maestria, e realizava diagnósticos, tais como pneumonia, tumores de tireóide ou hipotireoidismo, depressão, hipertensão ou diabetes, entre tantas outras doenças, que poderão passar sem diagnóstico por muitos anos, com todas as conseqüências de um diagnóstico tardio. Muitas vezes o(a) ginecologista é o(a) único(a) médico(a) a ter a oportunidade de avaliar a mulher durante anos e, durante esses anos, poucas vezes. Se então nessas poucas oportunidades não aproveitarmos para a feitura de uma avaliação geral, realizando diagnósticos precoces, no momento oportuno, então estaremos desperdiçando oportunidades eventualmente únicas de salvar ou prolongar a vida da mulher. Não estou querendo brincar de deus, “play like god”, como se diz em inglês, mas de verdade aplicar o princípio da medicina preventiva. Tantas vezes me senti realizada em minha prática médica, fazendo diagnósticos de tumores iniciais, em que pacientes, após tratamentos especializados foram consideradas curadas. Esse modelo é muito simpático, humanista e pode tornar-se bastante eficiente, pois em teoria, com histórias bem tiradas, menos exames laboratoriais seriam necessários. A gente se pergunta então porque não é implantado em todos os consultórios, estendendo-se às especialidades mais gerais, como clínica geral, endocrinologia, geriatria ou cirurgia geral.
O problema é que testemunhamos um momento crítico da assistência médica, em que o profissional é obrigado a atender pacientes de convênios e seguros de saúde, para sobreviver. Essas consultas são invariavelmente mal remuneradas, impondo um ritmo de atendimento muito rápido, que impede qualquer abordagem mais personalizada.
Convênios médicos cobram muito de seus conveniados, mas em geral remuneram mal os profissionais que lhes prestam serviço. Isso gera frustração nos dois lados do atendimento, tanto do profissional como do paciente; o primeiro, porque gostaria de poder prestar uma assistência mais completa, mas se assim o fizer, inviabiliza o consultório financeiramente e, o segundo, porque reivindica assistência médica dentro de suas expectativas ou do que seria razoável.
E parece que as dificuldades com os convênios médicos e as seguradoras de saúde apenas começam nesse país. Pessoalmente tenho a impressão de que é uma verdadeira batalha que começou, sem data para acabar. Então, o modelo de assistência médica que idealizo, tem poucas chances de se concretizar. 
Dra. Luciana Nobile
Email: luciananobile@brevesdesaude.com.br
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