| A
asma e os cuidados na gravidez
Profa. Dra. Maria Laura Sandeville A
asma é uma doença crônica
muitas vezes não adequadamente diagnosticada,
seja pela não valorização
dos sintomas pela pessoa acometida, ou porque
na infância lhe foi dado um diagnóstico
de “bronquite”, que na maioria
das vezes representa um quadro clínico
de asma.
Observamos, com alguma freqüência,
que o diagnóstico de asma assusta
a pessoa ou os pais das crianças,
por já terem ouvido dizer que a asma
pode matar. Entretanto, o tratamento adequado
a transforma em doença com baixíssimo
risco de morte e que dificilmente limita
a vida da pessoa. A não restrição
da vida do adulto ou da criança é
o principal objetivo do tratamento, além,
obviamente, da redução dos
casos de morte por asma. A
asma é uma doença que
compromete 10% da população
brasileira. É responsável
por 2.000 óbitos por ano e
incontáveis assistências
ambulatoriais, principalmente nas
unidades de emergência. A mortalidade
por asma é considerada baixa,
mas apresenta uma magnitude crescente
em diversos países e regiões.
Nos países em desenvolvimento,
a mortalidade por asma vem aumentando
nos últimos 10 anos, correspondendo
de 5 a 10% das mortes por causa respiratória,
com elevada proporção
de óbitos que ocorrem na própria
residência das pessoas, ou seja,
antes de terem auxílio médico.
Em contrapartida, o avanço
nos remédios disponíveis
para o tratamento da asma tem sido
enorme. Assim, o aumento da freqüência
e das mortes por asma ocorre, em grande
parte, devido à falta de um programa
assistencial efetivo, da falha de conscientização
dos profissionais de saúde e da população.
A asma ocorre por uma interação
entre fatores hereditários e ambientais.
O indivíduo para desenvolver asma
deve ter uma predisposição
genética e se expor a algum fator
ambiental que desencadeie o processo. Esses
fatores desencadeantes podem ser as infecções
respiratórias, fatores irritantes
como a poluição ambiental
e a fumaça do cigarro, ou a exposição
a agentes responsáveis por reações
alérgicas em pessoas sensíveis,
que são chamados de alérgenos. Os
principais alérgenos relacionados
à asma são a poeira doméstica,
os ácaros, o mofo, os pêlos
de animais e alguns alimentos. A
poeira doméstica mistura substâncias
vivas e inertes, constituída de restos
humanos, fibras de tecidos, escamas de pele
humana e de animais, bactérias, mofo,
bolores e ácaros. O problema é
agravado pelo uso de carpetes, cortinas
e cobertores.
Entre os fatores desencadeantes, devemos
destacar também as mudanças
climáticas, a exposição
profissional, o uso de certos medicamentos
e os aspectos emocionais, como o estresse.
Freqüentemente observa-se uma piora
da asma no inverno, pois a umidade e a temperatura
favorecem a proliferação dos
ácaros e bolores, e a permanência
das pessoas dentro de casa é maior.
Além disso, aumenta a incidência
de gripes e resfriados nesta estação. Os sintomas da alergia são conseqüência
de uma reação de defesa do
organismo, que age através de um
tipo de anticorpo (IgE), que o indivíduo
alérgico fabrica em grande quantidade.
Estes anticorpos estão na mucosa
respiratória e se ligam a uma célula
chamada mastócito. Após a
exposição a um alérgeno,
ocorre a liberação de substâncias
químicas pelos mastócitos,
provocando inflamação local,
responsável pelo inchaço da
mucosa. A repetição do processo
alérgico causa inflamação
crônica. Após a compreensão destes
conceitos, fica mais fácil entender
a asma, que se caracteriza por uma inflamação
crônica das vias aéreas, com
contratura da musculatura do brônquio, inchaço de sua parede e secreção
de muco dentro deste. Esta condição
pode ser reversível espontaneamente
ou com tratamento, manifestando-se clinicamente por episódios recorrentes de chiado, falta de ar, sensação de aperto no peito e tosse, particularmente à noite e pela manhã, ao despertar. O
chiado é a característica
mais marcante da asma, porém,
não é exclusivo dessa
doença. O diagnóstico deve sempre ser
feito pelo(a) médico(a), pois
outras doenças podem apresentar
os mesmos sintomas. Nas crises, os
adultos ou crianças sentem
falta de ar, tosse, chiado e aperto
no peito, às vezes com grande
sofrimento. Embora os sintomas costumem
aparecer nos primeiros anos de vida,
podem surgir pela primeira vez em
qualquer idade. Tratamento da asma O tratamento da asma é feito basicamente
com medicamentos para controlar a inflamação
das vias aéreas. Geralmente é
constituído por corticóides
inalatórios (conhecidos pela maioria
das pessoas como “cortisona”)
e por broncodilatadores – que dilatam
a musculatura do brônquio - para as
crises. Há também outras medicações
utilizadas com o intuito de “desinflamar
a via aérea”, mas não
serão comentadas neste texto. Quanto
ao uso de corticóides e broncodilatadores,
três ressalvas são fundamentais: 1.
O corticóide inalatório
(“cortisona”) não é
absorvido pelo organismo nas doses usualmente
indicadas pelo(a) médico(a), não
tendo os efeitos colaterais da “cortisona”
tomada por boca. 2.
O corticóide tomado por
boca, quando bem indicado, é necessário
para que se evite a inflamação
excessiva e o agravamento da asma. Deve
ser tomado pelo tempo indicado pelo(a)
médico(a), pois só ele(a)
pode avaliar o risco de não prescrevê-lo
para uma determinada pessoa ou, uma vez
prescrito, por quanto tempo deve ser tomado.
Nunca deve ser indicado em farmácias
ou por “auto-medicação”,
sobretudo sob a forma de injeções
no músculo. 3.
Os broncodilatadores são
muitas vezes utilizados na forma de spray
(conhecidos como “bombinhas”).
Atualmente, há outras apresentações
dos broncodilatadores inalatórios
e as vantagens e desvantagens de cada
uma devem ser avaliadas pelo(a) médico(a).
Eles não “viciam” e
não fazem “mal ao coração”,
como diz a crença popular. Entretanto,
seu uso deve sempre ter acompanhamento
médico, para que não sejam
usados de maneira excessiva ou em substituição
aos remédios para “desinflamar
os brônquios”. Além do tratamento com os remédios,
a orientação das pessoas
sobre como eliminar ou controlar fatores
desencadeantes, especialmente domiciliares
e ocupacionais, é fundamental.
A terapia deve focalizar de forma especial
a redução da inflamação,
evitando-se o contato com alérgenos
e irritantes e enfatizando o uso precoce
de agentes antiinflamatórios na
asma persistente. Sempre que o controle
esperado não for obtido, o(a) médico(a)
deve considerar: - A adesão do asmático ao
tratamento e sua atitude em relação
ao controle dos fatores desencadeantes:
deve-se sempre confirmar se os medicamentos
prescritos estão sendo usados de
fato e na dose recomendada e averiguar
se os cuidados referentes ao controle
da exposição aos fatores
desencadeantes estão sendo realizados; - A técnica de uso dos dispositivos
inalatórios: os remédios
para utilização pela via
inalatória, principalmente quando
não são aplicados através
do inalador convencional, necessitam de
treinamento e orientação.
Após a orientação
inicial é importante que periodicamente
o(a) médico(a) verifique se a pessoa
não adquiriu algum “vício”
na forma de administrar o medicamento,
que possa prejudicar sua absorção; - A presença de outros fatores
desencadeantes e/ou agravantes: sinusite
crônica, refluxo gastroesofágico,
exposição a novos alérgenos
e distúrbios emocionais. Além
disso, deve-se considerar a possibilidade
de um diagnóstico alternativo,
ou seja, a possibilidade de que a pessoa
apresente sintomas que possibilitem o
diagnóstico de asma, mas que na
realidade representem outra doença. Asma na gravidez Algumas
condições merecem atenção
especial, entre elas a gravidez na mulher
asmática. A gestação
reduz a reserva do pulmão, diminuindo
a capacidade respiratória. Crises
anteriormente bem toleradas pela mulher
podem não o ser na gestação.
Além disso, o feto pode se ressentir
da falta de oxigenação antes
da mãe, resultando em malformação
ou atraso em seu crescimento, ou seja:
fetos menores do que o esperado para o
tempo de gravidez. A gravidez tem um efeito variável
sobre o curso da asma: a asma pode permanecer
estável, piorar, ou melhorar durante
a gestação, com retorno
ao estado anterior à gravidez em
cerca de três meses após
o parto. Os sintomas geralmente melhoram
durante as últimas quatro semanas
da gravidez e o parto não costuma
associar-se com a piora da asma. O curso
da asma em sucessivas gestações
costuma ser semelhante em cada mulher.
O tratamento difere muito pouco daquele
preconizado para as mulheres não-grávidas. O
tratamento inadequado resulta em maior
risco para a mãe e para o feto
do que o uso de quaisquer dos remédios
necessários para o controle
da doença. O
baixo risco de malformações
congênitas associadas às
medicações usualmente
utilizadas no tratamento da asma está
bem documentado, o que deve tranqüilizar
as grávidas quando o(a) médico(a)
indica o remédio. Entretanto,
há as medicações
que são consideradas mais seguras
– geralmente as menos recentes
- e devem ser preferencialmente prescritas
durante a gravidez, desde que se consiga
deixar a mulher sem sintomas. Grávidas com
asma mal controlada podem ter o feto
com retardo de crescimento intra-uterino
e alformações, além
de estarem mais expostas a crises
que ameacem a sua vida. Assim,
é fundamental que a grávida
tenha consciência de que deve informar
ao(à) obstetra qualquer sintoma
respiratório, mesmo que não
a incomode, pois poderá já
estar sendo prejudicial ao feto. O(a)
obstetra, por sua vez, deve atuar em conjunto
com um(a) clínico(a) para que a
gestante e o feto recebam o melhor tratamento
possível, com o objetivo de evitar
complicações.  Prof. Dra Maria Laura Sandeville
Pneumologia e clínica geral.
E-mail: sandeville@uol.com.br  Considerações da editora
Como ex-fumante, passei por uma das experiências mais difíceis de minha vida há 3 anos, quando resolvi parar de fumar, após quase 35 anos de vício. A Dra.Maria Laura foi muito importante naquele momento, tendo tido um papel decisivo. Sei que não é fácil abandonar o cigarro. Mas fico preocupada, porque ainda tenho pacientes portadoras de asma que fumam!!! Estou fazendo um apelo para que a Professora Maria Laura escreva sobre o cigarro e como largar esse vício num boletim futuro e também um apelo para que as fumantes reconsiderem a possibilidade de parar de fumar. É possível essa glória sozinha, mas com ajuda médica, facilita. Um abraço, Dra. Luciana Nobile |