| Entrevista de Luciana Nobile para o Jornal Viseu Negócios de Portugal
O lançamento de “Sexualidade na Maturidade” em Viseu, Portugal, ocorreu em clima de festa, no 24/04/2004, véspera da comemoração da Revolução dos Cravos. Dentro do centro histórico, onde carros não circulam, das sacadas centenárias da Livraria Pretexto, vislumbrava-se antigas construções maravilhosas. Entre os convidados, havia inúmeros brasileiros, profissionais bem adaptados à terra de Camões e, como não poderia deixar de faltar, muitos dentistas bem sucedidos. Meus amigos brasileiros, que lá vivem há 12 anos, organizaram um elegante coquetel durante a tarde e, à noite, ainda tivemos um maravilhoso jantar com bacalhoada a Zé do Pipo. Tanto mimo vez ou outra é muito bom. Fui convidada a fazer uma exposição sobre sexualidade a professores do primeiro grau de uma escola local. Experiência nova em minha vida, foi bastante gratificante pelo extenso debate que se seguiu. Perguntas proferidas em tom de brincadeira ou não, tive verdadeira “sabatina” sobre questões de sexualidade humana durante minha estadia no norte de Portugal. Acho que nunca falei tanto sobre sexo em tão pouco tempo, o que foi um bom treinamento para experiências futuras. A seguir transcrevo entrevista feita pela internet antes de minha viagem a Portugal, que saiu em jornal local de circulação mensal, aqui sem as devidas adaptações realizadas para o casto português. Entrevista VN: “Sexualidade na Maturidade” é uma obra específica. O que a levou a escrever um livro desta natureza? LN: Após 20 anos de consultório de ginecologia, percebi que as dificuldades mais freqüentes da mulher referem-se à esfera da sexualidade. São problemas que aparecem como queixas espontâneas, ou estimuladas por perguntas durante a consulta. Ginecologistas freqüentemente restringiam-se a perguntar à mulher se ela tinha relações sexuais, quantas vezes por semana, se eram dolorosas ou se apresentava sangramento, e como fazia a contracepção. Quando a paciente queixava-se de falta de libido (desejo) sexual, não era raro receber de volta um sorriso de compreensão ou compaixão, sem resolução de fato para o problema, porque também o profissional não era preparado durante a sua formação médica para conversar sobre sexualidade com a mulher. Pergunto-me, às vezes, se urologistas tampouco estão preparados para tratar sexualidade masculina afora a prescrição de medicamentos que promovam a ereção peniana. Nesse contexto, que vem se modificando rapidamente, surgiu meu interesse em colaborar com minha experiência profissional da prática médica, aliada aos estudos de literatura especializada em medicina. VN: Quais são os temas abordados ao longo da obra? LN: São inúmeros, objetivando reforçar o direito da mulher no exercício da sexualidade, sem culpas ou preconceitos. Discorro sobre a anatomia dos genitais da mulher e do homem e de sua evolução com o avançar da idade, principalmente em suas interferências na sexualidade. Denuncio mais uma vez a expressão máxima da repressão sexual feminina, que ocorre até os dias de hoje, bem próximo daqui, cruzando o Mediterrâneo, que é a mutilação genital da menina. Escrevo sobre a masturbação, historicamente reprimida, mas que mantém os genitais vivos, saudáveis e também sobre o prazer do sexo solitário que não deve ser negligenciado. Oriento as técnicas e os cuidados da penetração anal, que não deve ser a forma preferencial de fazer sexo, pois é passível de complicações. Abordo ainda as doenças sexualmente transmissíveis (DST), no relacionamento heterossexual e homossexual, o climatério (e menopausa), a sexualidade após cirurgias ginecológicas, preservativos masculino e feminino, orgasmos vaginal e clitoridiano, ejaculação vaginal, disfunção erétil, distúrbios da libido e orgasmo, entre outros temas.
VN: Qual foi o objectivo de Luciana Nobile ao escrever este livro? LN: Como eu dizia lá na primeira pergunta, eu tinha a pretensão de fazer um texto abrangente, sobre a sexualidade feminina, sob a ótica de uma ginecologista formada há 25 anos na Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo e com 20 anos de experiência de clínica privada em ginecologia. Acredito que tenha conseguido. Entretanto, percebo que ainda tenho muito a dizer às mulheres sobre sexualidade, o que vai ficar para um segundo ou talvez até para um terceiro livro, sendo um pouco pretensiosa. Tenho muitas histórias para contar, muitas situações, muitos palpites para dar às mulheres e quem sabe continuar colaborando para que exerçam plenamente sua sexualidade, com seus parceiros ou solitariamente. Libido feminina é muito complexa. Infelizmente não existe uma fórmula única, que resolva a questão da falta de desejo sexual para todas as mulheres. Geralmente esse problema envolve inúmeras situações, que devem ser analisadas no conjunto. Então meu texto pretende fornecer o substrato básico para a mulher lidar com suas questões sexuais, mas ela tem que ter consciência de que nenhuma pílula é mágica como o viagra o é para o homem.
VN: Os textos direccionam-se, essencialmente, para mulheres da meia ou terceira idade. Porque escolheu escrever para este público e não para adolescentes? LN: De acordo com os temas do livro, é possível perceber que “Sexualidade na maturidade” é interessante para mulheres de qualquer idade. Entretanto, não me limitei à sexualidade de mulheres jovens, vou além dos 60 anos em minha apresentação, porque idades mais avançadas têm sido sistematicamente esquecidas nos textos de sexualidade. Muitas pacientes me disseram que solicitariam às suas filhas que o lessem, principalmente os capítulos de DST e do coito anal. Inúmeros maridos também leram o livro e é interessante que foi deles que ouvi os comentários mais consistentes a respeito do texto: é como se eles de repente tivessem despertado para a reflexão sobre a real necessidade e comportamento sexual de suas companheiras. Esse retorno todo de pessoas que leram o livro foi uma experiência pessoal muito enriquecedora e gratificante em minha vida. VN: Considera que as pessoas com mais de 40 anos de idade estavam mais necessitadas de uma obra desta natureza? LN: Com certeza, porque afora a escassez de leitura laica ou acadêmica sobre sexualidade na meia e na terceira idade, a sociedade praticamente exclui a possibilidade das mulheres mais velhas terem vida sexual. E isso traz implicações por vezes perversas às mulheres. Imagine você uma senhora após a menopausa, com alguma restrição à movimentação, morando sozinha numa casa de repouso, muitas vezes à própria revelia, por imposição de familiares: qual a privacidade pode ter para qualquer exercício de sua sexualidade?! Os profissionais que trabalham na casa de repouso tampouco receberam treinamento para respeitar as necessidades sexuais de seus pacientes, e isso tem sido denunciado em publicações científicas internacionais. Vou além, em muitos ambientes, seria motivo de piada dizer que uma senhora aos 70 anos pudesse ter desejo sexual. E o que de fato poderia impedi-la de tê-lo, se para isso não depende das complexidades da falta de ereção, conforme pode ocorrer no homem?
Oras, o homem também pode ter libido mesmo na ausência da ereção, são só tabus a serem rompidos. O usual é que as pessoas não consigam imaginar que seus pais e avós tenham desejo e que façam sexo, e isso é universal. VN: Podemos considerar o livro, como um veículo educacional? LN:Certamente, pois “Sexualidade na maturidade” alia conhecimentos práticos e teóricos numa linguagem compreensível às mulheres de diferentes níveis intelectuais. É interessante para ser adotado por escolas médicas, de psicologia, fisioterapia e de enfermagem como texto básico sobre sexualidade. Talvez o senhor desconheça, mas muitas dessas faculdades ainda não incluíram a Sexualidade Humana em seus currículos e muitas só o fizeram recentemente.
Tenho a honra de repetir as palavras da Sra.Beatriz Segall, expoente do teatro brasileiro, a Odette Roitman da novela Vale Tudo: “A divulgação de conhecimento é sempre bem-vinda para o desenvolvimento de uma sociedade. Quando a saúde pública é por vezes negligenciada, divulgar princípios médicos de higiene e recursos para prevenir doenças é primordial. “Sexualidade na maturidade”, da Dra.Luciana Nobile, é livro indispensável”. VN: Até que ponto “Sexualidade na Maturidade” retrata a sociedade brasileira? LN: “Sexualidade na maturidade” é um texto universal, sexualidade feminina é universal. E as dificuldades que a mulher brasileira enfrenta no exercício da sexualidade são muito semelhantes às dificuldades da mulher em qualquer país de cultura ocidental. Se você observar, das 86 referências bibliográficas que citei no texto, a grande maioria é de autores estrangeiros. Mulheres de gerações anteriores acreditavam que tinham que servir a seus maridos, sexualmente falando, não se despiam no claro, não sabiam o que era ter prazer sexual. O companheiro, por sua vez, achava que uma vez presente a ereção, essa não podia ser “desperdiçada”, e que a mulher tinha que estar pronta para “aproveitá-la”; não importava se ela estava com vontade, se encontrava-se suficientemente excitada e lubrificada para a relação sexual, o que muitas vezes caracterizava verdadeiro estupro doméstico. Felizmente vivemos outros tempos, em que a mulher conquista seu espaço também na cama e o homem preocupa-se com sua parceira, seu desejo e seu orgasmo. É um novo tempo de adaptação sexual do casal. Meu texto talvez esteja ainda um pouco à frente da realidade brasileira contemporânea.
VN: Enquanto ginecologista e obstetra considera que retrata episódios reais, de consultório? LN: Conto alguns casos de consultório, sempre com o cuidado de minimizar a chance de identificação da paciente, mas tive que retirar vários deles, por recomendação da própria editora. O receio foi de que pacientes identificassem suas histórias e de que isso as deixasse constrangidas em consultas futuras. Assim, muitas vezes acabei ilustrando com histórias pessoais e familiares, para não comprometer meu relacionamento com minhas pacientes. VN: Porque decidiu fazer o lançamento desta obra em Viseu, já que é uma obra baseada em casos de uma cultura diferente da portuguesa? LN: O sobrenome de solteiro de minha mãe é Meirelles de Almeida. Falamos um português mais informal, com um sotaque mais aberto, mas ainda assim é português. Fomos colonizados por Portugal. Então, me soa muito engraçado quando alguém me diz que somos uma cultura diferente da portuguesa.
De qualquer maneira, como já expliquei antes, disfunções da libido (desejo) e do orgasmo são semelhantes nas mulheres de cultura ocidental, que é a literatura e os países a que tenho tido acesso. Não estudei mulheres orientais. Escolhi Viseu porque aqui tenho amigos, com quem tenho uma história de muitos anos. Também tenho minha própria história com Viseu, onde deixei meu apêndice há alguns anos, numa viagem de turismo, operada pelo Dr.Namorado. E terei a honra de fazer o lançamento na livraria Pretexto, onde esteve o Sr.Saramago. Tenho mais uma coincidência com esse nobre escritor: a capa de meu livro é uma ilustração do gravurista franco-brasileiro Arthur Luiz Piza, o mesmo de suas capas. Meu livro já está traduzido para o espanhol, aguardando uma editora para a sua publicação na Espanha.
VN: Espera conseguir atingir o mercado nacional da mesma forma que conseguiu atingir o mercado brasileiro? LN: No Brasil a fama dos portugueses é a de que são extremamente receptivos e hospitaleiros conosco, os brasileiros. E essa tem sido minha experiência em minhas vindas a Portugal. Pessoas que paramos na rua para uma orientação, funcionários do comércio, restaurantes, hotéis, amigos dos amigos, enfim, sempre muito solícitos e simpáticos. Sei também que os portugueses alimentam o hábito da leitura. Tenho a pretensão de que comprem e gostem de meu livro, que não é um texto para leitura corrida, mas sim para ler e reler, para ter como referência e esclarecimento de dúvidas. Eu agradeço a oportunidade dessa entrevista e o parabenizo pelas perguntas, inteligentes e que me deram a oportunidade de discorrer sobre “Sexualidade na maturidade”, que espero que agrade aos meus patrícios portugueses. 
Entrevista realizada em abril/2004 especialmente para
o jornal Viseu Negócios Dra. Luciana Nobile
Ginecologista e obstetra
Editora de Breves de saúde
Autora de Sexualidade na maturidade
www.brevesdesaude.com.br
Email: luciananobile@brevesdesaude.com.br |